Um romance-colagem   O livro Opisanie Swiata, de Veronica Stigger, 3º lugar no 58º Prêmio Jabuti,  nos puxa para dentro de uma história permeada de non sense, fatalidade e simbologias nem sempre decifráveis. Impossível não citar a edição primorosa da Cosac Naify. Trata-se de um livro lindo, com cores e tipografia que fisgam e não são mero enfeite, mas fazem parte da forma de contar a história. O livro todo é permeado de imagens antigas que vão de fotografias em sépia a recortes de jornais e anúncios comerciais que se poderia encontrar no caso de refazermos o trajeto percorrido pelas personagens. Impressões de Leitura Através da curiosidade que se instala na leitura da primeira página – um carta ditada por Natanael ao seu médico e endereçada a seu pai, que, logo se descobre, desconhecia sua existência – nos embrenhamos por Opisanie Swiata, intrigados com o que possa significar esse título impronunciável. Mas, logo depois do mergulho inicial, as vezes o ritmo de leitura se quebra, como acontece com a personagem Opalka em uma viagem de trem – ele tenta ler, mas o que acontece ao redor o distrai. As coisas narradas por Veronica algumas vezes me distraíram também – o que, vendo na perspectiva pós leitura, é um efeito e uma relação interessante entre o conteúdo e leitor. A personagem principal não é Opalka, ainda que toda a narrativa se concentre entre a emissão da carta para ele e a viagem – da Polônia ao Brasil – para conhecer seu filho doente. Até o fim […]

Opisanie Swiata – Veronica Stigger


A autora Para escrever o romance A República dos Sonhos, Nélida Piñon se auto exilou em Congonhas do Campo  – MG, no ano de 1980. A edição comemorativa aos 30 anos da obra traz, inclusive, a lista de pertences (bem poucos) que ela levou consigo para a pensão onde cumpriu a rotina intensa que resultou em uma república desvendada a partir da obsessão de um jovem espanhol pela prosperidade na América. A Galícia é justamente a terra de onde o avô de Nélida partiu, junto com seus irmãos, para escapar dos efeitos da guerra. Desde o esboço resultante da estadia em Minas até o trabalho chegar às livrarias, foram oito versões e muita fita de máquina de escrever gasta. Uma República de Sonhos, as vezes desfeitos… Madruga, o patriarca de uma família que experimentou prosperidade, poder e frustrações, veio quase criança da Galícia – região norte da Espanha, para fazer a vida. Na longa travessia do oceado travou uma amizade sólida e imperfeita com Venâncio, um possível andaluz com valores muito diferentes dos seus. Do início do século vinte até suas últimas décadas, acompanhamos o trajeto de determinação, esperteza e dominação que ele imprime em suas relações, sejam profissionais ou familiares. O romance, além de narrar  sonhos e decepções, permite muitas outras leituras – tanto no sentido da interpretação como no literal, pois é livro para ler e reler ao longo da vida. Ao narrar a saga do imigrantes audaz e ambicioso que atravessa o oceano para conquistar fortuna e que, uma vez […]

A República dos sonhos – Nélida Piñon


Impressões de leitura Não me atrevo a chamar de resenha, mas deixo aqui um apanhado de minhas impressões de leitura do livro de Noemi Jaffe que gravei para o canal Entrecontos. Neste video, além de comentar o que mais me chamou a atenção no texto, falo da motivação #leiamulheres, que me impulsionou à compra e à leitura de mais autoras. Confira, sugira outros títulos e partilhe suas leituras também!   Cadastre seu e-mail se quiser receber atualizações e dicas de leitura     

Írisz: as orquídeas – Noemi Jaffe



A literatura e o digital em debate Durante a 61ª Feira do Livro de Porto Alegre, tive oportunidade de mediar um debate riquíssimo entre os escritores Cassio Pantaleoni e Marcelo Spalding. A proposta do evento era discutir a literatura e suas novas expressões nos meios digitais e o ponto de partida foi a apresentação da Editora Edibook, mostrando seu projeto de revista digital e uma proposta de adaptação de clássicos infantis para leitura em tablets e smartphones. Desde o princípio da discussão, que que partiu da fala do Patrono da Feira – Dilan Camargo – sobre a suposta disputa entre e-books e livros impressos houve certa convergência sobre a visão de que o meio em que o conteúdo é disponibilizado importa menos que o conteúdo em si e sua apreensão. Avançamos, porém, por rumos mais abrangentes, ponderando sobre o papel da leitura na formação dos indivíduos, a influência de outros meios como os audiovisuais sobre nossos hábitos e as deficiências no sistema educacional que moldam nossa sociedade. Com o aval dos debatedores, tento sumarizar aqui alguns dos pontos discutidos em torno da literatura e o digital e os modos de mútua influência entre texto e meio. Expectativas em torno do digital Ainda que livro e leitura andem juntos há alguns séculos, segundo Marcelo Spalding, assumir livro impresso como sinônimo de algo “bom” pode ser um equívoco – o livro em si nada significa, porque o valor está no conteúdo. Assim, muito mais do que preocupar-se com uma suposta competição entre o livro em formato digital e o impresso, cabe olhar […]

Literatura x digital – o que discutir?


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Autor presente (#sqn?) Quando se discute o uso da tecnologia como ferramenta na educação e o seu papel no fomento à leitura, pode-se, além de aderir aos smartphones dos quais os alunos não desgrudam, explorar as possibilidades de comunicação à distância. Foi exatamente isso que um encontro real entre professor e autora propiciou. Depois de uma palestra no Instituto Cervantes de São Paulo, onde falei de literatura digital e todas as plataformas onde transita a literatura na web, o professor Francis fez contato por redes sociais perguntando se eu toparia ser entrevistada por suas turmas, via web, naturalmente. Seu interesse era explorar o projeto Labirintos Sazonais como forma de provocar seus alunos de redação. Três turmas do oitavo ano brincaram com as trilhas possíveis no website, identificaram temas recorrentes nas histórias formadas e elaboraram uma série de questionamentos que me foram feitos em sessões de bate-papo por skype. Além da curiosidade sobre a motivação para criar esse tipo de obra, eles queriam saber se os temas que se repetem nas histórias eram intencionais, por que havia mais personagens masculinas, se eu havia escrito sozinha ou contara com parcerias e mostraram-se muito interessados sobre o processo de criação em si. As videoconferências duraram em torno de trinta minutos com cada turma e dependeram de um trabalho prévio realizado pelo professor, mas foram muito enriquecedoras para mim e, espero, também para eles. E depois de tudo fiquei me perguntando porque este recurso não é utilizado com maior frequência (ou será que é e estou mal […]

Conexões literárias – o virtual e seus frutos reais


Clássico literário x tecnologia Quando recebi o convite do curador da Fenelivro para debater o tema central do evento “O futuro do livro, o livro do futuro” olhando para a perspectiva do surgimento de um novo clássico literário, assaltou-me a surpresa. Normalmente os eventos relacionados a livros, leitura e/ou literatura tem abordado o livro digital ainda como algo distante ou ameaçador, no máximo uma promessa vaga para um futuro impreciso. Incluir a discussão da qualidade literária do que é produzido no âmbito digital significa assumir claramente que, independente da atual percentagem de vendas no digital em relação ao impresso (ainda muito baixo), ignorar essa via já não é mais possível. A proposta era que eu, o editor Ednei Procópio, especialista em e-books, e Roberto Bahiense, da Nuvem de Livros discutíssemos a questão juntando os diferentes pontos de vista (autor, editor e veículos de disseminação do conteúdo). Infelizmente, Roberto Bahiense não pode se juntar a nós, mas Ednei Procópio e eu pudemos contar com uma platéia atenta e questionadora. Antes de discutirmos a possibilidade de surgimento de um clássico literário na esfera digital, Ednei Procópio apresentou uma contextualização das mudanças tecnológicas, geopolíticas e sociais que nos trouxeram a esse cenário em que a grande maioria da população economicamente ativa dispõe de um smartphone conectado à internet e o quanto isso interfere nos hábitos de leitura e consumo (inclusive de livros). Por outro lado, tratou de lembrar também o que é, de fato, o cerne de um livro. Independente do hardware em que ele se apresenta (o […]

Haverá um clássico literário digital?



A literatura digital veio para ficar? Estaremos assistindo uma fase de transição na literatura que vai fazer das obras multimídia  o modelo dominante da produção textual? Ou será que os experimentos de agora serão substituídos por coisa totalmente distinta, a exemplo do que aconteceu com o video laser (quem lembrar disso denunciará sua faixa etária!)? O lançamento de obras criadas pra leitura no meio digital que podem nem ser lançadas em versão impressa (ou, se esta existe, exige grandes adaptações) já não é evento raro, mesmo aqui no Brasil. Assim, mesmo que não possamos (e sequer desejo) fazer prognósticos, vale a pena entender um pouco essa transição do ponto de vista do autor. No caso desse post, autora. Tenho acompanhado desde o início de sua criação, a história do romance multimídia de Claudia Grechi Steiner e achei que valia a pena partilhar aqui com vocês a conversa-entrevista que fiz com ela para entender um pouco mais das motivações e dos desafios que ela enfrentou na criação da obra. Conheça Castelo Schweistein e sua autora A seguir entrevista com a autora da obra de literatura digital, ou romance multimídia, como prefiram, Claudia G. Steiner. MK:  Eu lembro de seus posts no facebook contando que a ideia para escrever Castelo Schweistein veio ao ler um anúncio de jornal. Isso me despertou a curiosidade para a história que surgiria, mas ao acompanhar alguns capítulos e as publicações da Página da obra no fiquei também curiosa em saber se a ideia de desenvolver não apenas o texto […]

Castelo Schweistein – dos classificados à literatura


literatura + tecnologia = tempo melhor usado O Diminuto é um aplicativo de leitura e escrita colaborativa de minicontos. São textos de, no máximo, 750 caracteres disponibilizados gratuitamente para quem baixar o app. A ferramenta foi elaborada com base nas necessidades dos próprios fundadores, que incluiam o desejo de ocupar o tempo livre com coisas mais produtivas que joguinhos ou redes sociais e a vontade de ter uma plataforma de escrita com capacidade de atingir leitores e de oferecer novas opções de leitura. É uma ferramenta de passatempo cultural, que permite a leitura de contos curtos, capazes de se encaixar perfeitamente nos intervalos de uma rotina acelerada e megaconectada. Assim que tomei conhecimento da iniciativa, corri para experimentar. Em poucos cliques já estava pulando de um conto a outro no celular e logo descobri a possibilidade de enviar meus prórpios textos. O e-mail de boas vindas que o novo usuário recebe é tão caloroso e pessoal que me senti muito à vontade para escrever e “xeretar” um pouco mais sobre a história da inciativa bacana. A Déborah Gouthier, uma das responsáveis pelo projeto, que tomou corpo com o impulso do Fundo de Apoio à Cultura de Goiás, foi super gentil e o papo acabou virando a entrevista que agora publico para vocês. minicontos MK – Achei interessante que uma das motivações para desenvolvimento do Diminuto fosse a vontade de um uso mais rico do tempo na interação constante com a tecnologia. Conte-nos um pouquinho mais sobre o desenvolvimento da ideia que culminou na criação do aplicativo. Diminuto […]

Diminuto – Minicontos para qualquer hora


O encontro  “ao vivo”  entre escritor e leitores Partamos do pressuposto de que alguém que investe sua energia na escrita, espera ser lido. Pode haver incontáveis razões para esse desejo, mas acredito que seja um pressuposto válido para qualquer escritor. Sendo assim, o encontro entre escritor e leitor, que normalmente não se dá de forma direta, mas através do texto é um dos objetivos daquele(a) que escreve. Quem trabalha com programas de fomento à leitura, em geral, acredita que promover encontros presenciais entre o autor e o leitor é uma das formas de estimular o bom hábito de se embrenhar no mundo das palavras, por isso existem vários programas que lançam mão desse artifício, como o Encontros com o autor, Autor Presente e o Sesc Mais Leitura. Recentemente tive a oportunidade de participar desses encontros com o leitor em Bagé e em Cachoeirinha – Rio Grande do Sul e voltei cheia de ânimo e reflexões, que partilharei aqui com vocês. Quem é seu público alvo? Não vou retomar a pergunta que deve sempre estar latejando na mente de todo escritor (para quem eu escrevo?), mas as ansiedades que me assaltaram logo após aceitar o convite para participar da atividade do Sesc. O público abrangido por esse programa incluía Ensino Médio e as útimas séries do Ensino Fundamental, ou seja, pessoinhas com 12 a 17 anos. Quando criei o projeto de literatura digital Labirintos Sazonais, embora ciente do quanto a interatividade é atrativa para esse público, não tinha pessoas tão jovens em mente. Temia que […]

Encontros com o leitor – quem sai ganhando?



Uma das tantas possibilidades da publicação em e-book é a de dar asas aos heróis que tem iniciativa e disposição para editar e distribuir conteúdo sem finalidades comerciais. Foi o que fez Helena Frenzel ao reunir os textos de 15 escritores brasileiros e editar o 15 contos mais, que está disponível para leitura online e para download em formato ePub aqui. Como o arquivo não tem DRM, permite a conversão para o formato mobi (para leitura no kindle) com o uso do software gratuito Calibre. Sabemos que existe um volume consideravelmente grande (para não dizer absurdo) de novos autores querendo ser lidos, mas que sem um canal ou interlocutor que os avalize previamente, enfrentam a dificuldade de chegar diretamente aos leitores que não os conhecem. Daí a importância do trabalho de edição, neste caso feito por puro e exclusivo amor à literatura e à leitura. O leitor que busca por novidades, não precisa confiar apenas na auto declaração do autor, houve um trabalho de garimpo e edição que funciona como aquelas utilíssimas indicações de leitura que recebíamos dos amigos, lembram? Todo mundo que gosta de ler sabe do que estou falando… Isso certamente ajuda a driblar a desconfiança que se possa ter com  as publicações independentes, especialmente as gratuitas. Como não sou exceção, a indicação da Helena foi um motivador para iniciar a leitura (o tempo é escasso e, parafraseando um amigo que fala de vinhos, digo sempre que a vida é muito curta para lermos livros ruins), mas ainda assim, antes de me dispor a ler o e-book na íntegra, fiz uma amostragem para […]

Quinze contos mais