A República dos sonhos – Nélida Piñon


A autora

Para escrever o romance A República dos Sonhos, Nélida Piñon se auto exilou em Congonhas do Campo  – MG, no ano de 1980. A edição comemorativa aos 30 anos da obra traz, inclusive, a lista de pertences (bem poucos) que ela levou consigo para a pensão onde cumpriu a rotina intensa que resultou em uma república desvendada a partir da obsessão de um jovem espanhol pela prosperidade na América. A Galícia é justamente a terra de onde o avô de Nélida partiu, junto com seus irmãos, para escapar dos efeitos da guerra.

Desde o esboço resultante da estadia em Minas até o trabalho chegar às livrarias, foram oito versões e muita fita de máquina de escrever gasta.

Uma República de Sonhos, as vezes desfeitos…

A facilitação gráfica é, sobretudo, um processo de síntese visual, que tem como objetivo transmitir ideias de forma simples e criativa. Tarefas como comunicar um conceito complexo, contar uma história, realizar uma palestra, explicar um produto podem adquirir uma linguagem mais clara e sintetizada. É uma forma de “dar vida” à linha narrativa, com formas, cores e gravuras que representem a essência do que se deseja transmitir.

A facilitação gráfica é um processo de síntese visual, que ajuda a transmitir ideias de forma simples e criativa.
Aqui uma visão das impressões da leitura de República dos Sonhos comentada por Maurem Kayna e traduzida nesta colheita gráfica por Sidan O Rafa.

Madruga, o patriarca de uma família que experimentou prosperidade, poder e frustrações, veio quase criança da Galícia – região norte da Espanha, para fazer a vida. Na longa travessia do oceado travou uma amizade sólida e imperfeita com Venâncio, um possível andaluz com valores muito diferentes dos seus. Do início do século vinte até suas últimas décadas, acompanhamos o trajeto de determinação, esperteza e dominação que ele imprime em suas relações, sejam profissionais ou familiares.

O romance, além de narrar  sonhos e decepções, permite muitas outras leituras – tanto no sentido da interpretação como no literal, pois é livro para ler e reler ao longo da vida. Ao narrar a saga do imigrantes audaz e ambicioso que atravessa o oceano para conquistar fortuna e que, uma vez estabelecido no Rio de Janeiro, constrói para si uma família tratada muitas vezes como uma espécie de adereço, o livro traz também um panorama histórico do Brasil desde o final da monarquia (ainda que apenas através das maquinações e memórias inventadas de um dos personagens) até os estertores da ditadura militar, incluindo as perseguições das quais a própria família do protagonista teve de se esquivar. Mas, mais que tudo, o romance nos enreda na tessitura complexa de sonhos e de batalhas contra prescrições sociais limitadoras, e nos apresenta um retrato luminoso das dificuldades e desencontros que permeiam as interações humanas, sejam ditadas por sanguíneos ou quaisquer tipos de afeto.

Leva tempo para vencer a narrativa que expande o intervalo de poucas semanas – as últimas da esposa do protagonista – em um labirinto de recordações capazes de desvendar as origens e os descaminhos de Madruga e todas as consequências colhidas por ele próprio e as que respingaram nos filhos e agregados. A leitura não é fácil, menos pela complexidade do texto – direto e claro, mas não despido de poesia e forte crítica – mas porque cada personagem se desnuda ao leitor provocando reflexões muitas vezes dolorosas acerca da condição humana em geral e em particular do Brasil e da mulher.

Madruga teve, desde a viagem da Espanha para o brasil, um espelho e contraponto:  o amigo Venâncio, de ambições totalmente diversas das suas. Madruga fugiu do povoado de Sobreira, uma comunidade ao norte da Espanha, na região da Galícia, para “fazer a América”. Foge quase criança e conhece Venâncio no navio sem jamais ter a certeza da origem do amigo (talvez um cigano, um andaluz?). Madruga trabalha com ardor e constrói império e família. Venâncio sonha e sofre apaticamente com a miséria de todas as sortes que assiste no Brasil. Perdendo-se em páginas históricas na Biblioteca Nacional enquanto o amigo galego vai fazendo sociedades e acordos, quase sempre deixando questionamentos éticos de lado, ele  permanece uma sombra pálida ao largo da família que Madruga forma, chegando a ser padrinho do último rebento do casal Madruga e Eulália. Dentre os cinco filhos deste casal (seriam seis, mas um morreu ainda bebê), vê-se personalidades impetuosas e outras mesquinhas. Uns exalam ganância, outros luxúria – aos filhos homens, extravagâncias e fracassos são perdoados, às mulheres resta conformar-se ou ser expulsa. A filha preferida, Esperança, é figura crítica na trama, por sua teimosia em resistir ao papel de fêmea que esperam que aceite, acaba por ser enxotada da casa familiar. E ela aceita pagar esse preço, sempre de cabeça orgulhosamente alçada, apesar das dores. Ironicamente, é sua filha, Breta, quem acaba por costurar a trama puída da história que Madruga envergonha-se de não ter podido ele mesmo transmitir, como teria sido o sonho de seu avô, um contador de histórias que esperava ter sua tradição de oralidade continuada – e de certo modo, tem.

Efeitos da Leitura

Acredito que vale menos explorar a sinopse desse grande livro do que partilhar uma pequena mostra das reflexões e revoluções internas que ele pode propiciar.  A seguir alguns dos tantos trechos que destaquei e comentei durante a leitura (sim, sou daquelas que rabisca os livros!).

“Forçando-o a refletir sobre a morte, quando ainda preferia explicar a vida.”

O livro começa deixando muito claro que Eulália, mulher de Madruga, está prestes a morrer. Isso mexe com Madruga muito menos pela inevitável dor da perda do que pelo confronto a que se obriga com a evidência de que seu próprio fim está próximo. Isso é coisa que também começa a nos ocorrer logo depois dos quarenta, quando velórios deixam de ser acontecimento raro e com pessoas distantes de nós. Cada perda é também o anúncio insistente de nossa própria finitude.

 

“Percebera de repente que não lhe doeria tanto deixá-lo. Ou a família.  […] os sentimentos nascem e morrem encarcerados na mesma concha, raramento indo ao encontro do sol.”

O fato aqui é o mesmo, mas as sensações de um e outro, de quem aceita e talvez deseje partir e de quem quer ficar ou simplesmente angustia-se com algo que ainda lhe falte fazer são marcados pela diferença dessas duas sentenças. Eulália, aliás, passou quase toda a vida como coisa etérea, vaporosa, querendo ausentar-se do cotidiano concreto.

 

“Senti-o comovido pela primeira vez. O afeto é uma espada no peito, ia eu aprendendo. E a ausência do afeto correspondia igualmente à espada de Toledo cravada no coração, cancelando o movimento da vida”

Aqui Madruga refere-se ao seu tio Justo, ainda no povoado onde nasceu. Fiquei uns segundos sem fôlego depois de ler essa frase. Essa espada no peito é a culpa que sentimos por não atender aos desejos de quem queremos bem. Liberar-se desse peso, porém, pode ser igualmente paralisante, amargurante, porque a ausência de afeto resseca cada canto da alma e enrijece os passos de cada dia. 

 

“Desta forma tornando-se difícil, para o povo brasileiro, descobrir em que instante exato da sua constituição dera-se a ruptura entre o sonho de uma nação, em crescimento, e a prática da sua realidade. […]

 

“Por isso sobrando nas esquinas brasileiras milhões de olhos tristes e almas acabrunhadas, a despeito do uso dos pandeiros e dos tambores africanos.

[…]

“O Brasil vem mentindo para si mesmo a cada hora”

O filho menos acolhido por Madruga, Tobias, é um inconformado com as desigualdades sociais e durante o golpe de 64 empenha-se para libertar presos políticos. Sem sucesso em tudo na vida, inclusive nos enfrentamentos com o pai, é pela sua fala ou pela narração de suas desditas que temos grande parte do panorama desse mesmo Brasil que hoje nos espanta nas ruas e nos retratos parcias da mídia.

 

“A Suprema perdição de não conceber o universo além das dimensões da realidade.” 

Isso me parece, de fato a pior das condenações, porque, como dito mais adiante no mesmo capítulo:

“Só os artistas prorrogam a existência. E isso no caso de as obras reservarem no seu bojo uma qualidade excedente.”

 

“Desde menino, por influência do avô Xan, Madruga combateu o clero. Sobretudo o incenso espargido ao longo da nave e das narinas dos fiéis, com que os homens de batina extorquiam bens, vontade e imaginação dos seres crédulos. E com a força das orações em latim, lá iam eles podando a vida como fruto podre. A designarem como pecado manifestações naturais, e isto por absoluto desprezo à condição humana.”

Além da crítica mais que apropriada, há nesse trecho o retrato de uma forma muito genuína de como se formam as opiniões e posicionamentos em cada pessoa atenta e ciente de sua capacidade de ação – um misto de cópia das atitudes / ideias daqueles a quem admiram e da escuta atenta da forma espontânea como sentem a vida e a própria natureza.

“Nessas perambulações, a solidão lhe pesava. A audiência de um lar e mesmo de uma pátria. E isto apesar de criticar a noção de pátria, que não passava de uma invenção pertencente à esfera da idealização. Um simples território em que se acumulavam tabus, repressões, pavores. Forças vivas jamais permitindo ao cidadão devotar-se à construção da sua própria república. A pátria tornando-se, então, uma terra por onde transitar fugaz e alcoolizado. Com contornos geográficos e culturais esboçados unicamente pelos gestores da causa pública, encarregados de expulsar desta mesma pátria qualquer voz dissidente.”

Que síntese incrível do nonsense que pode significar a noção de pátria e patriotismo que tentam nos incutir, como se assim tivesse sido sempre e assim devessem as coisas permanecer. Essa recusa ou estranhamento de Venâncio parece muito alinhada a um certo nomadismo e reforça sugestão de que ele seja de espírito “gitano”.

“Esperança compreendeu o caráter histórico da circunstância de haver nascido mulher e, ainda por cima, naquela família. Tal fato roubava-lhe automaticamente a metade dos seus feitos. Restando-lhe apenas uma outra metade com que viver, e, por sinal, de forma insignificante.”

Esse trecho dispensa maiores comentários, mas impossível que não fique ecoando na cabeça de cada leitora que alguma vez experimentou qualquer tipo de restrição  ligada a seu gênero.

 

“Evitei discussões. Olhar a neta era mais vital que defender ideias. As ideias não me comoviam mais. Os homens sim.”

Poderia soar contraditório essa fala em Madruga se ele não fosse personagem tão humano e complexo. Mas a frase me pegou por conta da dúvida… acho que algumas vezes o desencanto me coloca em posição oposta à dele, ao menos como reação imediata às barbáries que mais me afetam. Depois reconsiderei: sim, ainda me emociona a espécie humana.

“Mas o que advirá após a morte dos últimos homens que ainda guardam na “retina esses prédios demolidos? Que cidade passará a existir? Ou será mesmo que uma cidade deve ser periodicamente arrasada, a fim de cada geração a reconstrua a seu gosto? E não reste um só vestígio urbano? Mas porque tal horror ao passado? Será isso próprio de país novo? Custa-lhes tanto assim admitir outras épocas? Ou cada homem ambiciona inaugurar a sua civilizaçãozinha particular?”

Isso me fez pensar tanto em Porto Alegre e em Recife! E em todos os cantos de qualquer cidade que toma decisões como as descritas…. dá um desolamento… e evita inclusive tanto as possibilidades de reflexão como de ganhos econômicos no longo prazo esse modelo de urbanização calcado no demolir.

“Aqui em Sobreira, não se tem por onde crescer. A não ser para dentro de si mesmo. Mas é uma viagem monótona, poucos compram passagem para este percurso. De que vale conviver só com as próprias vísceras e a própria alma?”

E eu me pergunto, por que não!? Ao menos em grande parte do tempo é assim, inevitavelmente. Então, que se aproveite a viagem…

“Xan pensou, a velhice é feia e imunda, e toda forma de declínio pretende degradar a liberdade.”

Degrada-se, na verdade, a força… poder-se-ia, então assumir que uma não subsiste sem a outra? Temo que sim, já que a liberdade parece exigir que se a mantenha com vigilância e sempre alguma disposição para a luta. Extremamente cansativo isso.

E, para terminar e instigar que mergulhem nesta obra incrível, deixo mais algumas frases soltas para desassossego-l@s:

 

“Nunca vi um país tão grande ter um sonho tão pequeno.”

“A despeito dos historiadores e das analogias estabelecidas, os erros voltam a ser igualmente cometidos.”

“Não receie nos ferir ou mesmo nos matar. É sempre preciso matar e ferir quando se conta uma história.”

Sobre a Colheita Gráfica

A facilitação gráfica é, sobretudo, um processo de síntese visual, que tem como objetivo transmitir ideias de forma simples e criativa. Tarefas como comunicar um conceito complexo, contar uma história, realizar uma palestra, explicar um produto podem adquirir uma linguagem mais clara e sintetizada. É uma forma de “dar vida” à linha narrativa, com formas, cores e gravuras que representem a essência do que se deseja transmitir.

Quando ouvi falar sobre esse recurso, através de um amigo que trabalha com isso, a primeira coisa que me ocorreu foi empregá-la para tentar sintetizar o romance que acabara de ler. Foram quase duas horas despejando minhas impressões de leitura, contando dos trechos que me impactaram e ainda falando das costuras disso com as coisas que temos vivido no mundo nesses últimos tempos. Ver o resultado pronto foi emocionante, porque, além de ajudar a falar de uma obra que todo mundo merece ter a chance de ler, me ajudou a ver o que eu consigo transmitir ao falar do livro.

Para assistir

Ficou com preguiça só de ver o tamanho do texto? Então assiste o video:

 


sobre Maurem Kayna

Maurem Kayna é Engenheira Florestal, baila flamenco e é apaixonada pela palavra como matéria-prima para a vida. Escreve contos, análises sobre a auto publicação e tem a pretensão de criar parágrafos perenes.