Ao Farol, Virginia Woolf


#Leia Mulheres

Ao Farol, de Virginia Woolf, é mais um dos livros discutidos no Clube de Leitura Leia Mulheres de Porto Alegre (confere aqui comentários de quem participou). As notas que aqui partilho com vocês foram tomadas durante a leitura e revisitadas depois da troca de impressões que rolou no encontro. Assim, de certa forma, trago além das minhas reflexões os insights, insatisfações e encantamentos que afetaram outros leitores.

Houve quem iniciasse o livro de nariz torcido e ao entregar-se ao ritmo poético e cênico tenha se apaixonado, quem entrou na história com olhar de pesquisa, quem não conseguiu empatia com as personagens, mas a sensação geral ao fim da leitura e das conversas sobre ela foi de que valeu o tempo investido.

O livro

Ao Farol, Virginia Woolf

Ao Farol, Virginia Woolf

A forma como Virginia decide contar a história de uma família inglesa que atravessa a guerra e a força do tempo deve ter soado estranha na época da publicação. O livro Ao Farol está dividido em três partes, sendo que a central chegou a ser publicada de modo independente* (com alterações relevantes em relação à versão que consta na obra). Durante toda a primeira parte acompanhamos a existência ao mesmo tempo rica e mesquinha de uma família inglesa ocupada com costumes e dissimulações. Na segunda, esta família é dizimada pelo tempo e pela guerra, mas só sabemos disso pelas descrições que a autora nos dá da casa de praia onde encontravam-se na primeira etapa e, o trecho final nos deixa suspensos entre a impossibilidade de comunicação entre as pessoas e a redenção que certos instantes oferecem. Mas calma, vamos rebobinar tudo e ir um pouco mais devagar e fundo nas extensas digressões e nas cenas que traduzem sensações fortes, mesmo quando não há grandes ações.

 

O tempo passa - Virginia Woolf

O tempo passa – Virginia Woolf

 

* Se puder, confira essa edição bilíngue lindíssima da parte central de Ao farol, lançada pela Editora Autêntica.

Vale também comentar que a obra saiu no Brasil com diferentes títulos: Ao Farol (L&PM); Passeio ao farol (Nova Fronteira); Rumo ao Farol (Publicações Folha).

 

As personagens e os safanões que nos dão

Em que resultará tudo isso, então? Como julgar os outros, pensar sobre os outros?

Essa e muitas outras inquietações de Lilly, uma das hóspedes da Sra. Ramsay — a protagonista, nos fazem olhar para a natureza humana (e para nós mesmos), sem a chance de desviar dos aspectos nobres nem das torpezas, alertando-nos para o fato de que, num mesmo indivíduo, os pontos fortes e os deméritos podem variar muito conforme vá mudando o observador.

a ruína estava encoberta; a domesticidade triunfava; o hábito engrenava seu ritmo suave.

A Sra Ramsay, protagonista da história, enfrenta diversas tempestades domésticas, derivadas do humor instável do marido, e em determinado trecho, seu alívio quando a calma se restabelece é um retrato primoroso das tensões e encolhimentos (para não usar o termo opressão, que muitos podem considerar desgastado) que mulheres experimentam como “responsáveis” pela paz no lar. Um tipo de tortura psicológica que não se restringe aos antigos matrimônios, mas persiste em muitos relacionamentos ainda hoje.

Virginia mistura neste livro análises lúcidas sobre o que os indivíduos experimentam lá no mais dentro de si com reflexões sobre a influência dos indivíduos incomuns nos rumos da humanidade, como em um trecho em que há um questionamento sobre como teria sido o mundo se Sheakspeare não tivesse existido.

Todos os personagens apresentam-se complexos — nem heróis, nem monstros; mas a posição de homens e mulheres é duramente determinante de suas possibilidades de criação e tomadas de decisão e atitudes. O Sr Ramsay sofre por sentir-se feliz com suas reflexões diante das misérias que o circundam; mas também diz para si mesmo esztar abdicando do exercício de encontrar algum sentido na reflexão suscitada pela cena do mar corroendo a terra porque lhe pesa a responsabilidade de ser pai de oito filhos, como se estivesse preso a um grilhão que lhe impede de dedicar-se integralmente à filosofia — que dizer então da Sra. Ramsay?

Apenas pensava que a vida — e uma pequena faixa de tempo se apresentou a seus olhos — seus cinquenta anos. Ali estava diante dela — A vida. A vida, pensou — mas não concluiu o pensamento. Olhou a vida, pois tinha uma clara sensação de que ela estava ali, algo real, algo pessoal, que não partilhava com os filhos nem com o marido. Havia entre ambas uma espécie de transação, em que ela estava num lado e avida no outro, e sempre tentando levar a melhor, como se lhe coubesse; e às vezes negociavam uma trégua (quando estava sozinha); havia, lembrou, grandes cenas de reconciliação, mas de modo geral, bastante estranhamento, ela tinha de admitir que essa coisa a que chamava de vida lhe parecia terrível, hostil, pronta a atacar na primeira oportunidade.

É pungente esse trecho (e vários parágrafos da sequência) que traz algo do peso que o envelhecimento tinha para a Sra Ramsay (que sempre foi bela), e o quanto era penoso o seu esforço materno de proteger os filhos e seu desejo de promover o casamento e a procriação dos que orbitavam seu mundo, quase como um desespero para que algum dos seus tutelados cumprisse o desejo de felicidade que ela quase se atrevia a admitir que não alcançara.

 

quando a pessoa está sozinha, se apega às coisas…..

Que sensação boa de ver-se traduzida em parágrafos como esse aí de cima.

A protagonista chega a viver um momento de “basta!”, mas, em seguida, acaba por atender ao desejo do marido de protegê-la. A Sra Ramsay, talvez querendo encobrir as limitações de sua condição, como que dando-se um prêmio de consolação, apiedava-se dos homens, dizendo a si mesma que algo lhes faltava e por isso se apiedava deles.

Então porque se importava com o que ele dizia?

Há ainda o Sr. Tansley — um perfeito boçal arrogante — afirmando que mulheres não sabem pintar ou escrever e fazendo com que Lilly se incomodasse duplamente com ele — em parte por não ter forças para contestá-lo e também por se sentir atingida pelas afirmativas que não conseguia analisar como uma defesa para auto-estima fragilíssima do rapaz.

Usara o truque se sempre – ser gentil. Ela nunca o conheceria. Ele nunca a conheceria. As relações humanas são todas assim, pensou, e as piores ( se não fosse pelo Sr. bankes) eram entre homens e mulheres.

É um bocado melancólico pensar que a afirmação sobre a impossibilidade de comunicação entre pares continue valendo para nossos dias. Mas encontro fortes indícios de que vencer essa afirmação é trabalhoso e requer empenho contínuo.

Tudo o que é apresentado na primeira parte do livro deixa entrever a ruína e a frustração sob a aparência de normalidade, mas a casca cai mesmo é na parte central. Através das imagens da deterioração da casa onde a família veraneava com seus convidados, temos a notícia da morte de familiares, da guerra e das desventuras daqueles que antes preocupavam-se com o figurino para o jantar.

Se não quiser spoilers sobre o final do livro, melhor deixar a leitura do restante dessas notas para depois…

Já a parte final é como um golpe que ao um só tempo extermina as ilusões e deixa ver que junto às durezas que brigamos por manter à distância, há luzes e possibilidades de encontro, mesmo que eles não se concretizem.

Na última parte reencontramos Lilly, uma parte da família Ramsay e dos convivas de outrora. Lilly mergulha em reflexões, agradece a possibilidade que tem de não se casar, pois ela tem uma visão crítica do amor, provavelmente capaz de causar escândalo na época, especialmente para uma personagem mulher. Fiquei pensando… seriam Lilly e Mr. Bankes dois solteirões gays? Lilly revolta-se com a atitude d Sr. Ramsay, ávido pela atenção de todos, talvez porque fosse apaixonada pela Sra. Ramsay, mas depois de todas as feridas deixadas pela guerra e pelo tempo, ela baixa a guarda e chega a compadecer-se dele. É lindo  momento de epifania de Lilly enquanto o Sr. Ramsay navega até o farol e ela encontra-se consigo.

Aliás, é difícil não ter ao mesmo tempo raiva e pena do Sr Ramsay em alguns trechos, como, por exemplo, quando ele pensa sobre o quanto lhe agrada a divisão de papéis entre homens e mulheres — marujos no mar e esposas cuidando dos filhos — enquanto ele se coloca em uma categoria à parte (superior?), pensando as coisas e suas interações. Como ele é cruel e obtuso por não entender e não aceitar a dificuldade da filha com os pontos cardeais.

Lilly sente uma certa libertação e poder ao constatar que as coisas não se passaram como a Sra Ramsay previra.

não, pensou, não se podia dizer nada a ninguém, a premência do momento sempre fazia as palavras perderem seu objetivo. Elas se alvoroçavam e acabavam atingindo o alvo algumas polegadas abaixo.

Como se poderia expressar em palavras essas emoções do corpo?

O livro acaba quando o Sr. Ramsay conclui a leitura que fazia enquando o barco rumava ao farol e Lilly finaliza seu quadro, sem se importar que fosse algum dia exibido, mas satisfeita consigo por tê-lo acabado.

Resíduos da leitura

Sabe aquela sensação de perplexidade que nos toma após uma leitura que nos explica o m mundo e ao mesmo tempo nos deixa com zilhões de perguntas sobre como pode ser possível se mover na vida para encontrar algum sentido?

Ao término da leitura, é possível que fique uma linda imagem da angústia que pode ser a criação / tradução de algo que nos inquieta no mundo. Ao contrário do que fez Proust ao descobrir um sentido para a existência na depuração da memória e das experiências mais agudas, concentradas em frações da vida como um gesto ou uma cena em plena praça, Virginia afirma, através de uma personagem, que a grande revelação nunca chegou, que não há uma grande revelação. Mas a conclusão é, no fim das contas, a mesma.

os pequenos milagres diários, iluminações, fósforos inesperadamente acesos na escuridão.


sobre Maurem Kayna

Maurem Kayna é Engenheira Florestal, baila flamenco e é apaixonada pela palavra como matéria-prima para a vida. Escreve contos, análises sobre a auto publicação e tem a pretensão de criar parágrafos perenes.