Maurem Kayna


sobre Maurem Kayna

Maurem Kayna é Engenheira Florestal, baila flamenco e é apaixonada pela palavra como matéria-prima para a vida. Escreve contos, análises sobre a auto publicação e tem a pretensão de criar parágrafos perenes.


#Leia Mulheres Ao Farol, de Virginia Woolf, é mais um dos livros discutidos no Clube de Leitura Leia Mulheres de Porto Alegre (confere aqui comentários de quem participou). As notas que aqui partilho com vocês foram tomadas durante a leitura e revisitadas depois da troca de impressões que rolou no encontro. Assim, de certa forma, trago além das minhas reflexões os insights, insatisfações e encantamentos que afetaram outros leitores. Houve quem iniciasse o livro de nariz torcido e ao entregar-se ao ritmo poético e cênico tenha se apaixonado, quem entrou na história com olhar de pesquisa, quem não conseguiu empatia com as personagens, mas a sensação geral ao fim da leitura e das conversas sobre ela foi de que valeu o tempo investido. O livro A forma como Virginia decide contar a história de uma família inglesa que atravessa a guerra e a força do tempo deve ter soado estranha na época da publicação. O livro Ao Farol está dividido em três partes, sendo que a central chegou a ser publicada de modo independente* (com alterações relevantes em relação à versão que consta na obra). Durante toda a primeira parte acompanhamos a existência ao mesmo tempo rica e mesquinha de uma família inglesa ocupada com costumes e dissimulações. Na segunda, esta família é dizimada pelo tempo e pela guerra, mas só sabemos disso pelas descrições que a autora nos dá da casa de praia onde encontravam-se na primeira etapa e, o trecho final nos deixa suspensos entre a impossibilidade de comunicação entre as pessoas e a […]

Ao Farol, Virginia Woolf


Um romance-colagem   O livro Opisanie Swiata, de Veronica Stigger, 3º lugar no 58º Prêmio Jabuti,  nos puxa para dentro de uma história permeada de non sense, fatalidade e simbologias nem sempre decifráveis. Impossível não citar a edição primorosa da Cosac Naify. Trata-se de um livro lindo, com cores e tipografia que fisgam e não são mero enfeite, mas fazem parte da forma de contar a história. O livro todo é permeado de imagens antigas que vão de fotografias em sépia a recortes de jornais e anúncios comerciais que se poderia encontrar no caso de refazermos o trajeto percorrido pelas personagens. Impressões de Leitura Através da curiosidade que se instala na leitura da primeira página – um carta ditada por Natanael ao seu médico e endereçada a seu pai, que, logo se descobre, desconhecia sua existência – nos embrenhamos por Opisanie Swiata, intrigados com o que possa significar esse título impronunciável. Mas, logo depois do mergulho inicial, as vezes o ritmo de leitura se quebra, como acontece com a personagem Opalka em uma viagem de trem – ele tenta ler, mas o que acontece ao redor o distrai. As coisas narradas por Veronica algumas vezes me distraíram também – o que, vendo na perspectiva pós leitura, é um efeito e uma relação interessante entre o conteúdo e leitor. A personagem principal não é Opalka, ainda que toda a narrativa se concentre entre a emissão da carta para ele e a viagem – da Polônia ao Brasil – para conhecer seu filho doente. Até o fim […]

Opisanie Swiata – Veronica Stigger


A autora Para escrever o romance A República dos Sonhos, Nélida Piñon se auto exilou em Congonhas do Campo  – MG, no ano de 1980. A edição comemorativa aos 30 anos da obra traz, inclusive, a lista de pertences (bem poucos) que ela levou consigo para a pensão onde cumpriu a rotina intensa que resultou em uma república desvendada a partir da obsessão de um jovem espanhol pela prosperidade na América. A Galícia é justamente a terra de onde o avô de Nélida partiu, junto com seus irmãos, para escapar dos efeitos da guerra. Desde o esboço resultante da estadia em Minas até o trabalho chegar às livrarias, foram oito versões e muita fita de máquina de escrever gasta. Uma República de Sonhos, as vezes desfeitos… Madruga, o patriarca de uma família que experimentou prosperidade, poder e frustrações, veio quase criança da Galícia – região norte da Espanha, para fazer a vida. Na longa travessia do oceado travou uma amizade sólida e imperfeita com Venâncio, um possível andaluz com valores muito diferentes dos seus. Do início do século vinte até suas últimas décadas, acompanhamos o trajeto de determinação, esperteza e dominação que ele imprime em suas relações, sejam profissionais ou familiares. O romance, além de narrar  sonhos e decepções, permite muitas outras leituras – tanto no sentido da interpretação como no literal, pois é livro para ler e reler ao longo da vida. Ao narrar a saga do imigrantes audaz e ambicioso que atravessa o oceano para conquistar fortuna e que, uma vez […]

A República dos sonhos – Nélida Piñon



Você prefere impresso ou e-book? Quem gosta de ler e costuma conversar sobre suas leituras provavelmente já se deparou com algum questionamento ou papo sobre a preferência de leitura em papel ou no meio eletrônico. Sou quase capaz de apostar que sua preferência de leitura é o impresso. Acertei? Se não, você faz parte de um grupo ainda restrito, viu!? Para a maioria, ler impresso e e-book não é a mesma coisa. Algumas críticas ao livro eletrônico, abstraindo o apego emocional dos bibliófilos (grupo no qual também me enquadro, embora de modo um tanto flexível), podem ser pertinentes em algumas situações, mas com o crescimento e evolução dos smartphones, parece-me que as resistências tem cada vez menos justificativas baseadas em fatos. Telas e atenções Apesar dos e-readers já serem vendidos no Brasil há um bom par de anos, ainda é comum ouvir como resposta, quando pergunto a alguém sobre seus hábitos de leitura de e-books, que a tela do computador é muito desconfortável e cansativa. Impossível discordar. Aliás, na minha opinião, tablets ficam quase na mesma categoria quando se fala na leitura de textos ficcionais, especialmente os mais longos. A inadequação tem a ver com conforto de leitura (tela e-ink e papel são incomparavelmente mais confortáveis para os olhos do que qualquer tela LCD, LED ou qualquer outra que emita luz. Mas isso já são favas contadas, muito já foi discutido a respeito nos debates sobre o espaço ocupado por e-readers x tablets, essa “batalha” já foi perdida – e-readers com tela […]

Ler é diferente em impresso e e-book?


Impressões de leitura Não me atrevo a chamar de resenha, mas deixo aqui um apanhado de minhas impressões de leitura do livro de Noemi Jaffe que gravei para o canal Entrecontos. Neste video, além de comentar o que mais me chamou a atenção no texto, falo da motivação #leiamulheres, que me impulsionou à compra e à leitura de mais autoras. Confira, sugira outros títulos e partilhe suas leituras também!   Cadastre seu e-mail se quiser receber atualizações e dicas de leitura     

Írisz: as orquídeas – Noemi Jaffe


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Concursos literários – arriscar e aprender Participar de concursos literários requer investimento de tempo e alguma grana (no mínimo para impressão de várias cópias e custo de envio), para um retorno no mínimo incerto. Mas, sem arriscar ninguém sai do lugar e foi graças aos riscos assumidos pelos nossos antecessores que a espécie chegou a esse momento, não (aliás, para bem e para mal). Seguindo esta lógica, o enviei material para alguns certames ao longo de 2015 e posso afirmar que mesmo naqueles em que não fui selecionada, houve ganhos em todos os casos. Acompanhem! Off Flip O Prêmio Off Flip chegou, em 2015, na sua décima edição e é um dos concursos que cobra taxa de inscrição e do qual nunca havia participado. Este ano, por entendê-lo como um bom espaço de divulgação, resolvi mudar de postura e enviar um conto. Tive a gratíssima surpresa de ficar entre os finalistas que vão para a coletânea a ser publicada pelo Selo Off Flip. A publicação em coletâneas pode ser um excelente caminho inicial para autores iniciantes, mas é preciso saber que há concursos em que a publicação anterior, pode ser um critério de eliminação enquanto em outros ter algo já publicado é uma exigência. Agora é só aguardar pela publicação, que ainda no primeiro semestre de 2016 já deve estar pronta. Prêmio Sesc de Literatura Sim, inscrevi um romance (na categoria contos, na qual já fui finalista, não posso mais concorrer por já ter livro de contos publicado) e não […]

Alegrias literárias de 2015



A literatura e o digital em debate Durante a 61ª Feira do Livro de Porto Alegre, tive oportunidade de mediar um debate riquíssimo entre os escritores Cassio Pantaleoni e Marcelo Spalding. A proposta do evento era discutir a literatura e suas novas expressões nos meios digitais e o ponto de partida foi a apresentação da Editora Edibook, mostrando seu projeto de revista digital e uma proposta de adaptação de clássicos infantis para leitura em tablets e smartphones. Desde o princípio da discussão, que que partiu da fala do Patrono da Feira – Dilan Camargo – sobre a suposta disputa entre e-books e livros impressos houve certa convergência sobre a visão de que o meio em que o conteúdo é disponibilizado importa menos que o conteúdo em si e sua apreensão. Avançamos, porém, por rumos mais abrangentes, ponderando sobre o papel da leitura na formação dos indivíduos, a influência de outros meios como os audiovisuais sobre nossos hábitos e as deficiências no sistema educacional que moldam nossa sociedade. Com o aval dos debatedores, tento sumarizar aqui alguns dos pontos discutidos em torno da literatura e o digital e os modos de mútua influência entre texto e meio. Expectativas em torno do digital Ainda que livro e leitura andem juntos há alguns séculos, segundo Marcelo Spalding, assumir livro impresso como sinônimo de algo “bom” pode ser um equívoco – o livro em si nada significa, porque o valor está no conteúdo. Assim, muito mais do que preocupar-se com uma suposta competição entre o livro em formato digital e o impresso, cabe olhar […]

Literatura x digital – o que discutir?


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Autor presente (#sqn?) Quando se discute o uso da tecnologia como ferramenta na educação e o seu papel no fomento à leitura, pode-se, além de aderir aos smartphones dos quais os alunos não desgrudam, explorar as possibilidades de comunicação à distância. Foi exatamente isso que um encontro real entre professor e autora propiciou. Depois de uma palestra no Instituto Cervantes de São Paulo, onde falei de literatura digital e todas as plataformas onde transita a literatura na web, o professor Francis fez contato por redes sociais perguntando se eu toparia ser entrevistada por suas turmas, via web, naturalmente. Seu interesse era explorar o projeto Labirintos Sazonais como forma de provocar seus alunos de redação. Três turmas do oitavo ano brincaram com as trilhas possíveis no website, identificaram temas recorrentes nas histórias formadas e elaboraram uma série de questionamentos que me foram feitos em sessões de bate-papo por skype. Além da curiosidade sobre a motivação para criar esse tipo de obra, eles queriam saber se os temas que se repetem nas histórias eram intencionais, por que havia mais personagens masculinas, se eu havia escrito sozinha ou contara com parcerias e mostraram-se muito interessados sobre o processo de criação em si. As videoconferências duraram em torno de trinta minutos com cada turma e dependeram de um trabalho prévio realizado pelo professor, mas foram muito enriquecedoras para mim e, espero, também para eles. E depois de tudo fiquei me perguntando porque este recurso não é utilizado com maior frequência (ou será que é e estou mal […]

Conexões literárias – o virtual e seus frutos reais


Por quê ler mulheres? O risco de resistência à hashtag #leiamulheres, sob o argumento de que boa literatura não tem gênero porque é humana e universal, provavelmente não é baixo. Então, para começar a conversa, acho que vale dar uma olhada no que sugere esta pesquisa feita pela Alpaca Editora sobre os hábitos de leitura de 2.538 brasileiros de todos os Estados. Caso alguém tenha tido preguiça de ler os resultados lá, resumo aqui os dados mais gritantes comentados: a proporção de livros escritos por mulheres que é lido por leitores que leem mais de 10 livros por ano fica em torno de 1 a 2 (no máximo de 3 a 5, mas esta é uma resposta menos frequente); apenas 30% das publicações no Brasil são de obras escritas por mulheres (dados de uma pesquisa da Universidade de Brasília) em torno de 30% das personagens são mulheres Uma outra abordagem pode ser vista no Suplemento Pernambuco, onde se pode conferir a experiência de Catherine Nichols com agentes literários e a diferença de receptividade aos textos com base no gênero do escritor. Todos os dados e análises poderiam ser utilizados para responder à provocação do título, mas eu, pessoalmente preciso acrescentar mais um: como mulher e como escritora me interessa ter contato com a visão, técnica e criação de outras mulheres e escritoras. Ponto. (Não, isso não significa que eu não considere fundamental ter contato com a visão e a técnica de escritores homens do mundo todo, mas isso já aconteceu naturalmente por conta de sua maior […]

#LeiaMulheres



Clássico literário x tecnologia Quando recebi o convite do curador da Fenelivro para debater o tema central do evento “O futuro do livro, o livro do futuro” olhando para a perspectiva do surgimento de um novo clássico literário, assaltou-me a surpresa. Normalmente os eventos relacionados a livros, leitura e/ou literatura tem abordado o livro digital ainda como algo distante ou ameaçador, no máximo uma promessa vaga para um futuro impreciso. Incluir a discussão da qualidade literária do que é produzido no âmbito digital significa assumir claramente que, independente da atual percentagem de vendas no digital em relação ao impresso (ainda muito baixo), ignorar essa via já não é mais possível. A proposta era que eu, o editor Ednei Procópio, especialista em e-books, e Roberto Bahiense, da Nuvem de Livros discutíssemos a questão juntando os diferentes pontos de vista (autor, editor e veículos de disseminação do conteúdo). Infelizmente, Roberto Bahiense não pode se juntar a nós, mas Ednei Procópio e eu pudemos contar com uma platéia atenta e questionadora. Antes de discutirmos a possibilidade de surgimento de um clássico literário na esfera digital, Ednei Procópio apresentou uma contextualização das mudanças tecnológicas, geopolíticas e sociais que nos trouxeram a esse cenário em que a grande maioria da população economicamente ativa dispõe de um smartphone conectado à internet e o quanto isso interfere nos hábitos de leitura e consumo (inclusive de livros). Por outro lado, tratou de lembrar também o que é, de fato, o cerne de um livro. Independente do hardware em que ele se apresenta (o […]

Haverá um clássico literário digital?


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Mormaço Corre mal a semana – tão poucas vendas concretizadas transformam a ameaça do desemprego em uma presença permanente, como se houvesse alguém ocupando o banco do carona.  Mas ainda restam duas cidadezinhas no roteiro e até o final do dia a sorte talvez seja mais simpática com ele. A paisagem do interior, verde e quieta, não resolve nenhum problema concreto, mas ameniza tudo que desbota o ânimo. Paulo gosta de dirigir, e lhe agrada a vida itinerante, o contato com os donos de bares e pequenos mercadinhos. Gente de quem sorve histórias, com quem divide anedotas e consegue rir como se não tivesse pensamentos escuros. Na estrada, vai ensaiando os argumentos para convencer seus clientes e faz a contagem regressiva da distância a percorrer até o próximo estabelecimento. Mas os tempos andam difíceis e os produtos que representa não são fáceis de vender como os gêneros alimentícios. A bebida sempre tem saída, mas em épocas de crise, especialmente naquelas cidades marcadas por hábitos religiosos mais restritivos, acaba vendendo menos. Para afugentar a ansiedade e a sonolência ele desiste do ar condicionado e abre a janela, acreditando nos poderes que tem o barulho do vento para dissipar, se preciso, até o medo. Faltam ainda quinze quilômetros. Quando deixa atrás de si o asfalto para enfrentar os paralelepípedos e depois o chão batido, vê uma sombra atravessar o caminho que o automóvel percorre, cada vez menos rápido, respeitando os buracos e a poeira. O animal veloz estampou-se no vidro durante o […]

Um conto sobre o acaso e a covardia


A literatura digital veio para ficar? Estaremos assistindo uma fase de transição na literatura que vai fazer das obras multimídia  o modelo dominante da produção textual? Ou será que os experimentos de agora serão substituídos por coisa totalmente distinta, a exemplo do que aconteceu com o video laser (quem lembrar disso denunciará sua faixa etária!)? O lançamento de obras criadas pra leitura no meio digital que podem nem ser lançadas em versão impressa (ou, se esta existe, exige grandes adaptações) já não é evento raro, mesmo aqui no Brasil. Assim, mesmo que não possamos (e sequer desejo) fazer prognósticos, vale a pena entender um pouco essa transição do ponto de vista do autor. No caso desse post, autora. Tenho acompanhado desde o início de sua criação, a história do romance multimídia de Claudia Grechi Steiner e achei que valia a pena partilhar aqui com vocês a conversa-entrevista que fiz com ela para entender um pouco mais das motivações e dos desafios que ela enfrentou na criação da obra. Conheça Castelo Schweistein e sua autora A seguir entrevista com a autora da obra de literatura digital, ou romance multimídia, como prefiram, Claudia G. Steiner. MK:  Eu lembro de seus posts no facebook contando que a ideia para escrever Castelo Schweistein veio ao ler um anúncio de jornal. Isso me despertou a curiosidade para a história que surgiria, mas ao acompanhar alguns capítulos e as publicações da Página da obra no fiquei também curiosa em saber se a ideia de desenvolver não apenas o texto […]

Castelo Schweistein – dos classificados à literatura



Labirintos Sazonais é, em sua origem, uma obra de literatura digital. Foi criado para “fisgar” o leitor típico do ambiente web. É curto, tem potencial de interação com o leitor e está vinculado com redes sociais, por isso é digital. Tem links e imagens, mas o centro da obra é a palavra, por isso é literatura. Agora Labirintos Sazonais é, também, livro (em formato impresso e eletrônico), mas é livro e muito mais. No entanto, mesmo antes de ter sido publicado em versão impressa saltou da versão digital para a analógica em oficinas do Sesc Mais Leitura, possibilitanto seu acesso mesmo em situações “offline” (foram usados cartões impressos com cada “peça” do texto para que os alunos “montassem” as sequências desejadas). Com isso, desde o início de sua criação, lá pelo finalzinho de 2012, tenho tido a chance de descobrir as tantas possibilidades de um livro, ou melhor, de cada texto. Sobre as alegrias e percalços dessa publicação em múltiplas plataformas (website, e-book e impresso) saiu um artigo bacana no Colofão, que recomendo para quem se interessa pelos bastidores da trasformação de uma ideia em um objeto, no caso, um livro. Mas é a reação dos que se deparam com o conteúdo que mais tem me mostrado coisas importantes acerca  do papel e das possibilidades da literatura. Um pouco desse aprendizado será partilhado com o público do evento que está sendo organizado pela Hub Editorial, em São Paulo, nos dias 05 e 06/fev/2015. A palestra faz parte da programação do 15º Encontros de Férias […]

Labirintos Sazonais – livro e muito mais


Literatura ou tecnologia? Volta e meia surge o debate sobre o potencial da tecnologia como ferramenta de fomento à leitura – defendida por uns, execrada por outros. Ao examinar os argumentos de cada posição, é bom ponderar que não há pesquisas ou opiniões neutras, pois, de algum modo, elas sempre refletem uma certa visão de mundo. Isso não é bom nem ruim, apenas demonstra a necessidade de analisá-las com doses equilibradas de mente aberta e senso crítico. Há visões que defendem o “enriquecimento” do texto com o uso dos recursos que a tecnologia oferece, incluindo imagens, animações, sons, links e toda interatividade que se possa explorar. Tal estratégica ajudaria a “conquistar” leitores e a tornar a atividade de leitura mais interessante(?!). A esta abordagem talvez convenham, ao menos, duas reflexões: 1) por que a “simples” leitura não é considerada interessante ou divertida o suficiente?; e 2) as atividades consideradas não divertidas deveriam então ser banidas, especialmente da vida dos leitores em potencial? No extremo oposto, há indícios de que a leitura realizada em aparelhos como tablets e smartphones – entrecortada por todo tipo de distrações – não só é de qualidade inferior àquela realizada em livros de papel, como também pode reduzir a capacidade de enfrentar leituras mais longas e profundas mesmo fora desses suportes, como uma espécie de sequela. Tal análise descarta ou ignora a funcionalidade de alternativas como os leitores dedicados – e-readers -, o que pode representar a chance de carregar mais de 500 títulos em um […]

Literatura e tecnologia, parceria ou disputa?


literatura + tecnologia = tempo melhor usado O Diminuto é um aplicativo de leitura e escrita colaborativa de minicontos. São textos de, no máximo, 750 caracteres disponibilizados gratuitamente para quem baixar o app. A ferramenta foi elaborada com base nas necessidades dos próprios fundadores, que incluiam o desejo de ocupar o tempo livre com coisas mais produtivas que joguinhos ou redes sociais e a vontade de ter uma plataforma de escrita com capacidade de atingir leitores e de oferecer novas opções de leitura. É uma ferramenta de passatempo cultural, que permite a leitura de contos curtos, capazes de se encaixar perfeitamente nos intervalos de uma rotina acelerada e megaconectada. Assim que tomei conhecimento da iniciativa, corri para experimentar. Em poucos cliques já estava pulando de um conto a outro no celular e logo descobri a possibilidade de enviar meus prórpios textos. O e-mail de boas vindas que o novo usuário recebe é tão caloroso e pessoal que me senti muito à vontade para escrever e “xeretar” um pouco mais sobre a história da inciativa bacana. A Déborah Gouthier, uma das responsáveis pelo projeto, que tomou corpo com o impulso do Fundo de Apoio à Cultura de Goiás, foi super gentil e o papo acabou virando a entrevista que agora publico para vocês. minicontos MK – Achei interessante que uma das motivações para desenvolvimento do Diminuto fosse a vontade de um uso mais rico do tempo na interação constante com a tecnologia. Conte-nos um pouquinho mais sobre o desenvolvimento da ideia que culminou na criação do aplicativo. Diminuto […]

Diminuto – Minicontos para qualquer hora



Quer saber minhas razões para escrever? Volto a essa(s) pergunta(s) do “escrever para quê” ou “para quem” com frequência. Por muitas razões, mas a principal é para me situar durante o processo de escrita. Quando um conto empaca ou as mãos travam acima do teclado sem que a ideia que parecia ótima há poucos instantes se converta em uma frase ao menos, a pergunta “escrever para quê? (ou para quem) pode ser uma boa chave. Recentemente, a participação em um projeto bacana, chamado Escritores Perguntam, Escritores respondem me faz revisitar a pergunta, sempre com novas possibilidades de respostas Escrever é uma espécie de necessidade, não da mesma ordem das fisiológicas, ainda assim, uma necessidade. Porém, intermitente. Isso significa que, se a vida anda agitada, se há visitas, viagem de férias, uma pilha de bons livros para ler ou simplesmente o trabalho para dar conta e o guarda-roupas para por em ordem, a escrita só acontece pela ação da disciplina. Falo por mim, claro (e com inveja de quem não se deixa afetar pelo mundo prático e escreve mesmo que chova canivetes). Não sou do tipo que comumente larga o prato de macarrão ou o copo de caipirinha para ir com urgência ao teclado ou bloco de notas. Deveria(?), mas não é assim. Por isso, manter presentes os motivos que um dia me fizeram querer escrever é uma forma de estabelecer a necessária disciplina para continuar escrevendo. A necessidade de escrever Essa tal necessidade, mesmo que intermitente, no meu caso tem parentesco com a urgência de entender […]

Escrever para quê(m)?


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o que mudou para os leitores? Em 2010 publiquei meu primeiro e-book. Aproximadamente na mesma época ganhei um Kindle (que, aliás, ainda funciona muito bem obrigada!) e comecei a buscar informações sobre as possibilidades, limitações e peculiaridades desse formato de livro. Na época, li um artigo de Ednei Procópio sobre o e-book no contexto do mercado editoral brasileiro – poucas livrarias, insuficiente rede de bibliotecas públicas e um hábito de leitura de chorar no cantinho (a média por brasileiro seria de 1,8 livros lidos por ano, incluindo-se aí religiosos e didáticos). Tudo levava a crer que tínhamos no Brasil um terreno fértil para a adoção de uma alternativa com grande potencial para alavancar o hábito de leitura do brasileiro (ao menos daqueles que já tinham o costume e o gosto pela leitura), mas o benefício dos e-books (mais baratos, fáceis de carregar para qualquer lugar em diferentes aparelhos de leitura) não atingiu a expressão sonhada por uns e temida por outros. Em discussão desde 2010, a alteração da Lei 10753/2003,  que permitiria aplicar as mesmas isenções de tributos dos livros impressos também para e-books, ainda não foi aprovada, ainda assim, há diferenças de cenário a comemorar: o número de e-books disponíveis em português saltou de 4.389 em abril de 2012 para 74.377  (pesquisa na Amazon.com.br em 03/2016) partimos de uma realidade em que praticamente a única loja nacional a vender e-books aqui era a Gato Sabido (que já nem existe mais) para o atual em que a presença da Amazon, Apple e Kobo (via Cultura), além de […]

e-books no Brasil


O encontro  “ao vivo”  entre escritor e leitores Partamos do pressuposto de que alguém que investe sua energia na escrita, espera ser lido. Pode haver incontáveis razões para esse desejo, mas acredito que seja um pressuposto válido para qualquer escritor. Sendo assim, o encontro entre escritor e leitor, que normalmente não se dá de forma direta, mas através do texto é um dos objetivos daquele(a) que escreve. Quem trabalha com programas de fomento à leitura, em geral, acredita que promover encontros presenciais entre o autor e o leitor é uma das formas de estimular o bom hábito de se embrenhar no mundo das palavras, por isso existem vários programas que lançam mão desse artifício, como o Encontros com o autor, Autor Presente e o Sesc Mais Leitura. Recentemente tive a oportunidade de participar desses encontros com o leitor em Bagé e em Cachoeirinha – Rio Grande do Sul e voltei cheia de ânimo e reflexões, que partilharei aqui com vocês. Quem é seu público alvo? Não vou retomar a pergunta que deve sempre estar latejando na mente de todo escritor (para quem eu escrevo?), mas as ansiedades que me assaltaram logo após aceitar o convite para participar da atividade do Sesc. O público abrangido por esse programa incluía Ensino Médio e as útimas séries do Ensino Fundamental, ou seja, pessoinhas com 12 a 17 anos. Quando criei o projeto de literatura digital Labirintos Sazonais, embora ciente do quanto a interatividade é atrativa para esse público, não tinha pessoas tão jovens em mente. Temia que […]

Encontros com o leitor – quem sai ganhando?



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Por influência de um amigo (que nunca vi ao vivo, embora more muito perto de mim) passei a assinar o boletim diário do The Write Practice, que traz dicas bacanas para a vida de escritores. Não leio todos os dias o email que é em geral curto e provocativo, mas guardo as dicas que considero bom substrato para reflexões. Um desses textos (que fala sobre a importância da colaboração entre escritores, historicamente e em termos práticos) eu repassei para três amigos da escrita com quem troco impressões com certa frequência e isso deu início a uma boa conversa por email (coisa que está ficando rara em tempos de facebook message e Whatsapp) sobre a dificuldade que existe para se encontrar um espaço de discussão honesta da produção textual, coisa tão defícil e ao mesmo tempo decisiva para a vida de escritore. O mais comum (e disso há exemplos espalhados por todas as redes sociais e ambientes reais imagináveis) é a troca de gentilezas interesseiras ou de espinhos, no geral baseados na relação entre as pessoas e não na reação delas ao texto “discutido”. O artigo fala justamente da importância das trocas entre artistas (não que qualquer dos grandes que tenha se valido dessas interações nunca tenha se enredado em atritos de vaidade ou bajulações, é sempre bom lembrar) e do quanto a mesquinhez nossa de cada dia só atrapalha a nós mesmos. E-mail ia e-mail vinha e acabamos concluindo  que tínhamos formado um pequeno grupo (realmente pequeno, 4 pessoas, na verdade) que consegue, com certa […]

Vida de escritor – da importância de um boteco


Já contei antes para algumas pessoas que decidi apostar no e-book antes da publicação impressa por duas razões: 1) mesmo que eu não conseguisse vender nenhum exemplar (o que, felizmente, não se confirmou), não teria incorrido em desperdício de material, energia (sob o enfoque de aspectos ambientais) e grana e não ficaria com um monte de caixas ofertando alimento às traças e 2) a inexistência de barreira para a distribuição do livro digital, em tese, favorece tremendamente o seu alcance  em termos de número de leitores, territórios abrangidos e até mesmo condições sociais para aquisição (já que o e-book pode ser muito mais barato que o impresso). Isso tudo dentro de uma visão muito lúcida quanto à minha insignificância enquanto autora totalmente desconhecida e que não aborda temas populares / potencialmente vendáveis. Também já contei sobre minha desconfiança quanto ao termo “literatura digital”, que acabou por ser (ao menos parcialmente) desmontada quando topei o desafio de produzir algo que pudesse ser definido com essa alcunha. Pois graças à provocação inicial do Marcelo Spalding, que me provocou a criar uma literatura pensada para o meio digital agora o Labirintos Sazonais acaba de ser contemplado com recursos do Fundo de Apoio à Cultura do Estado do Rio Grande do Sul e vai sair dos bytes para as páginas. Ao invés de uma adaptação do digital para acolher o que já havia em páginas, isso demandará um belo esforço de criatividade e alternativas de impressão para trazer ao papel a possibilidade de leitura não linear proposta no Labirintos – […]

Conexões entre livro digital e livro impresso


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National Novel Writing Month (NaNoWriMo) é antes de qualquer coisa uma proposta de diversão para insanos do mundo todo que assumem o desafio de escrever um romance de, no mínimo, 50.000 palavras entre a hora zero do dia 1º de novembro e as 23:59 do dia 30 de novembro. Uma espécie de ONG que se propõe a motivar a  escrita como um caminho para tornar o mundo um lugar mais criativo e vibrante (palavras do time no “about” do site). Soa romântico e idealista, não? Mas vamos dar uma olha prática sobre os efeitos da mobilização que essa iniciativa promove analisando os dados mais recentes: Houve 341.375 participantes em 2012, incluindo perfis tão variados como mecânicos de automóveis, desempregados, alunos do ensimo médio, professores de línguas ou letras, aposentados e por aí vai; Ano passado 648 voluntários atuaram como uma espécie de embaixador municipal, pessoas espalhadas em 586 regiões de seis continentes  motivando e esclarecendo os demais participantes, organizando encontros para discutir e escrever; 82.554 estudantes e educadores participaram do Programa Jovem Escritores, que promove o uso da escrita como uma ferramenta adicional do processo educativo (no Brasil não creio que isso já tenha engrenado, mas parece algo funcional nos EUA) 615 bibliotecas abriram suas portas para escritores se reunirem, escreverem e trocarem experiências entre si E em 2013, 44.919 campistas participaram do retiro de escrita online Camp NaNoWriMo Considerando só os participantes da América do Sul e Central, em 2013, até o dia 28/11, haviam sido escritas mais de doze milhões de palavras. Alguém pode dizer que quantidade não significa nada. Impulsivamente eu estaria inclinada a concordar, […]

NaNoWrimo ou Por quê escrever 50 mil palavras em um mês?



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Brasileiro não lê? Ao “xeretar” na web em busca de reflexões ou estudos sobre qual seria a principal motivação para a leitura, quais as razões que fazem alguém gostar de ler, encontrei elucubrações e conclusões interessantes. Primeiro, notei que a queixa sobre os hábitos pouco robustos de leitura não é exclusividade do Brasil. Portugal padece de problema similar; Porto Rico e México queixam-se do mesmo; Espanha também. E possivelmente muitos outros países, cujos idiomas não domino. Não acredito que nivelar pela pior situação seja um consolo efetivo. Aliás, não gosto de consolação para situações que devem ser mudadas, mas saber que o problema não é exclusividade nacional pode ajudar a buscar as causas raíz, tratá-las e, no longuíssimo prazo, alcançar cenários diferentes. Ou, indo um pouco além, pode nos fazer questionar essa “máxima” de que brasileiro não lê, como se isso fosse um defeito intrínseco da nação ao invés de uma realidade mais ampla. Motivações para a leitura Um argumento que apareceu em mais de um artigo sobre as motivações da leitura me atraiu e trata da distância existente entre o sujeito considerado apto a ler (alfabetizado) e aquele que é capaz de compreender o que lê. Felizmente, todos que analisam a questão da leitura mais seriamente sabem que não basta a leitura mecânica, o que conta mesmo é a interpretação. O cenário pintado nesse ensaio de 1994 é de que todas as incontáveis ‘atrações’ disponíveis para o indivíduo moderno estariam ganhando a batalha pela preferência dos cidadãos em relação à leitura, vista como […]

Qual a sua motivação para a leitura?


Talvez seja reducionismo colocar a questão da literatura nesses termos, mas as posições que tenho acompanhado na web sobre a declaração polêmica de Raphael Draccon parecem se dividir entre a supervalorização do escritor e o endeusamento do texto. Se tivesse de escolher um lado, ficaria com o segundo, mas prefiro discutir alguns outros pontos. Voltando ao tumtulto gerado pela entrevista do autor de fantasia (que nunca li, preciso esclarecer), nos posts e comentários que li vejo basicamente duas vertentes: alguns defendem que a vida pessoal do escritor e sua presença em mídias várias são determinantes para o sucesso do produto que ele venha a oferecer (editores, ou gente ligada ao mercado editorial predominam nesse grupo) enquanto outros, revoltados com as declarações dadas durante a Bienal do Livro, vociferam e insistem em defender a relevância do texto acima de tudo. Draccon acabou corrigindo o que alegou ser uma edição fora de contexto das suas declarações, mas o fato é que há tempos tenho assistido a discussões similares. E para que não paire a impressão de que estou empoleirada sobre o muro, esclareço não ter simpatia por escritores pop star. Entretanto, creio que seja necessário fazer uma distinção muito clara entre os perfis de escritores e o texto que produzem, pois, faço parte dos que entendem o texto como mais relevante que a figura que o gerou – por uma razão muito simples: pessoas, geniais ou medíocres, perecem e o texto tem a chance de permanecer, principalmente (mas não só) se dotado de boa qualidade. E esse raciocínio precisa levar em conta que um […]

O que vale mais, o texto ou o escritor?


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As funções da leitura Em   um convite à reflexão que fiz aos leitores do site, lancei a seguinte provocação: afinal, para quê serve a leitura?  As respostas que recebi foram muito interessantes e motivadoras, inclusive uma que questionou porque o texto enviado via newsletter não estava no site. Então, veio a ideia de inserir aqui a reflexão em cima da reflexão que consegui suscitar. No texto enviado, defendia que, mesmo que não possamos negar que ler clássicos da literatura ou ficção contemporânea implica em um exercício distinto da leitura de jornais, portais de notícia ou tratados científicos, devemos admitir que o ato de ler sempre cumpre funções importantes na formação e desenvolvimento do indivíduo que pretendemos ser. Argumentei que a leitura ajuda a melhorar nossa capacidade de análise dos fatos, assim como o bom uso da linguagem (que gera melhor comunicação entre os indivíduos) e falei de seu potencial de nos trazer conhecimentos que podemos usar na vida prática ou apenas nos deleitar com seu acúmulo. Também alertei que não acredito que se alcance reais benefícios com qualquer tipo de leitura; que absorver textos de modo passivo, sem filtro crítico, sem questionamento, sem atenção genuína, nos converte em meros repetidores de conceitos que podemos sequer compreender. Mas esse filtro vai se adquirindo também com a leitura. Aliás, uma linda imagem a respeito pode-se se encontrar no conto de Ítalo Calvino – Um general na biblioteca. Recomendo! Todos sabemos do papel dos meios de comunicação na construção das opiniões predominantes na sociedade, mas pouco se comenta sobre os filtros a que estamos submetidos e que os vendedores de conteúdo (de livros infantis a notícias […]

Para quê serve a leitura?



Essa é uma análise do Kobo Glo feita de usuário comum para usuário comum. Não vou abordar características técnicas só compreendidas ou percebidas por “iniciados”, mas os aspectos que mais me interessam como leitora com o objetivo primeiro de ler com o maior conforto possível aquilo que me interessa. As comparações que farei são meramente especulativas, pois não estou comparando produtos similares, mas dispositivos diferentes em termos de tecnologia e de plataforma. Tenho um Kindle Keyboard 3G (a partir daqui, simplesmente K2 ou Kindle) desde 2010 (genhei de aniversário) e quando abri a caixa não sabia absolutamente nada sobre diferenças de formato, proteções anti pirataria (DRM) e cadastros necessários para poder comprar e ler e-books. Nada que meia dúzia (menos, na verdade) de pesquisas no oráculo não resolvessem. De saída fiquei encantada com a praticidade de poder carregar centenas de livros em pouco mais de 300 g e por poder ler longamente com a mesma sensação visual de estar em frente a uma página de papel.  Passei a carregar o kindle sempre comigo e, com isso, consegui aumentar meu tempo de leitura significativamente (até a fila do supermercado virou espaço para ler). Quando a venda de e-readers com preços um pouco mais razoáveis iniciou no Brasil, no final de 2012, não cogitei comprar um e-reader novo. Mesmo que houvesse modelos mais leves, telas com melhor definição e (aqui uma tentação)telas iluminadas que permitem ler sem iluminação ambiente sem causar o cansaço que a iluminação de um tablet provoca em leituras longas, eu tinha um argumento mais forte: […]

Kobo Glo, Kindle ou iPad?


Engana-se quem pensa que a literatura exige ineditismo. Há infindáveis formas de se contar uma história e pensando nisso faço muitos exercícios de refazer e desfazer histórias. O conto a seguir já teve outros títulos, outros finais e mesmo outras etapas narrativas, mas o cerne continua sendo um só – uma pitada de taquicardia e desencontro que expõem o descompasso entre pessoas que não construíram um vínculo dado como inevitável. Descompasso Vai pela calçada engolindo o sol com a pele, absorto com as marcas de chiclete e tocos de cigarro que turvam o chão, mas nota o carro passando. Percebe ou acredita perceber o veículo reduzindo a velocidade sem se deter, o olho no retrovisor querendo voltar. Por algum tempo, bem curto, reina a certeza de ter sido reconhecido. Fernando mantém o ritmo e finge desatenção com o tráfego quando chega na esquina e escolhe ir no sentido oposto ao deslocamento do carro. Não quer saber a decisão da condutora quanto a seguir adiante ou investigar, congela a imagem do seu olhar no espelho e repete-a para si mesmo em cada passo que segue imprimindo sobre o pavimento. Ao passar a mão pela barba, sente o vento tocar a claridade dos próprios olhos, o ar é frio e o remete à água que tantas vezes colhera do poço, debruçado na mureta de tijolos úmidos onde as vezes cresciam avencas, indeciso entre o medo de não atender sua mãe a tempo e a curiosidade pelo túnel vertical, interrompido pelo espelho denso que ele rompia com a […]

Um conto cheio de taquicardia e desencontro


A combinação de assuntos soou estranha? O quê e-books, marketing digital e o momento político podem ter em comum? Comecemos, então, falando sobre a eficácia da propaganda dirigida que algumas lojas de e-books (ou qualquer loja virtual, na verdade) conseguem fazer. Decidindo sua próxima leitura Como vocês provavelmente já sabem, eu gosto de ler e costumo comprar e-books, por isso, tenho cadastro em diversas livrarias virtuais que costumam ter um marketing atuante, embora nem sempre efetivo. Normalmente consigo aproveitar alguma dica ou oferta quando recebo os e-mails da Amazon contendo promoção de e-books. Isso acontece porque são promoções interessantes, há e-books realmente baratos (menos de R$10,00) em temas ou de autores que me interessam. E isso não é coincidência, a Amazon sabe o que me interessa porque tem registros daquilo que leio e pesquiso no portal Amazon. Não é 100% de acerto, lógico, mas o resultado obtido (para mim e para eles) é bem diferente do que acontece com as demais livrarias online. A Apple não é muito ativa no envio de promoções ou lançamentos, e também não parece personalizar muito os envios. As outras todas que enviam regularmente e-mails com recomendação de títulos (os óbvios, em geral, possivelmente selecionados com base no mesmo “critério” adotado nas gôndolas de destaque nas livrarias físicas, ou seja, editora ou autores pagam pelo destaque – o que não considero propriamente condenável). Porém, não há um filtro baseado nos interesses de cada leitor, apenas a lista de e-books e seus preços.  Há que se destacar como fato positivo o crescimento da oferta de títulos na casa dos dez reais, embora predominem os preços atrelados ao valor do livro físico […]

e-books, marketing digital e o momento político



Desde que a curiosidade me levou participar de diversos fóruns virtuais onde se discutem questões relativas ao e-book, literatura digital e fomento à leitura já estive no meio de alguns embates sobre coisas como: a premente necessidade de “re-invenção” do livro; a importância de que os e-books não sejam apenas uma versão a mais do livro impresso; as possibilidades infinitas que o enhanced book traria Minha posição? Gosto de ler. Amo a arquitetura com palavras. Não preciso de interatividade. Deixem o e-book ser um símile do impresso com as vantagens da portabilidade. As respostas? Sou uma retrógrada, uma saudosista fora de contexto e uma espécie em extinção. A prática? Continuo lendo livros “caretas” e acredito que sempre os preferirei, mas quis o destino (ou o interesse pelo assunto) que mantivesse discussões e me aproximasse de pessoas que abordam o tema pela perspectiva investigativa. Sim, a academia, que tantos (muitas vezes eu mesma) criticam, vem estudando o chamado fenômeno da Literatura Digital. O escritor Marcelo Spalding, que suspendeu sua dedicação à ficção nos últimos tempos para mergulhar no assunto em função de sua tese de doutorado, depois de concluí-la acabou provocando a mim e a cronista Ana Mello para participar de um Projeto de Literatura Digital. Mas, que diabos é isso de literatua digital? Bem, o Manifesto lá no site do projeto (olha que coisa mais metida!) explica, mas em suma, estamos falando basicamente de literatura (=texto) com recursos ou ferramentas não disponíveis numa versão impressa. Vago, não!? Ok, também acho. Mas o caso é que Ana e eu aceitamos o desafio de […]

Literatura digital – que raios será isso?


Se você gosta de ler, é bastante provável que frequente ou já tenha frequentado uma biblioteca. E se gosta MUITO de ler, é ainda mais provável que as horas dispendidas nesse ambiente façam parte das suas boas memórias – incluindo todos os sentidos empregados na experiência da leitura, apesar das eventuais crises de rinite no caso de prédios úmidos ou povoadas de exemplares mais antigos. Caso tenha se enquadrado nessa descrição, entre bucólica e saudosista, também não é impossível que esteja no grupo dos que torcem o nariz para o e-book, ao menos se a sua experiência com leitura de livros eletrônicos se restringe ao computador ou aos tablets. Entretanto, se já teve a oportunidade de provar o conforto de um e-reader, é mais difícil que, mesmo amando o cheiro e a experiência tátil dos livros, rejeite com ênfase a chance de carregar boa parte de sua biblioteca pessoal na bolsa ou na mochila. O uso pessoal, porém, é uma coisa, bibliotecas de verdade são outros quinhentos, certo? São praticamente templos a serem reverenciados e mantidos. Sim, isso eu acho que são mesmo e seu papel no incentivo à leitura é indiscutível. Mas já existe um novo modelo de biblioteca começando a se estabelecer, um modelo sem prateleiras repletas de volumes, talvez, sem um único livro sequer, e ainda assim capazes de armazenar um sem fim de conhecimento, literatura, informações, registros históricos. O termo Biblioteca Digital pode abarcar certa variedade de situações, como  digitalização dos acervos das bibliotecas físicas, uma boa medida, digamos, de backup e […]

Bibliotecas Digitais


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Comprando livros online Há tempos atrás uma série de posts no blog EbookBR analisou as experiências de compra em diferentes livrarias online. Era um olhar para o cenário em vigor antes da abertura da amazon.com.br, da parceria Kobo-Cultura, da iBookstore e do Google Play e estava focado exclusivamente em e-books. E agora, depois de um longo tempo de presença dos e-books no mercado e da Amazon vendendo também livros físicos, como estão as coisas? Resolvi fazer um percurso virtual por várias das livrarias originalmente avaliadas e fazer novos testes ou análises relativas à diversidade do catálogo, facilidade da compra, qualidade do e-book, preço e formas de interação com o cliente. O resultado é apresentado pelo nome da livraria em ordem alfabética. Amazon Eu demorei a fazer uma conta na Amazon.com.br porque o catálogo oferecido na loja americana, que atendia o público brasileiro antes da chegada oficial deles por aqui, é diferente e eventualmente disponibiliza coisas que me interessam e que não estão disponíveis no site daqui. Catálogo de e-books (em 03/16): são cerca de 77 mil títulos em língua portuguesa (contra 16,9  em 2013), mas é preciso levar em conta que um grande número das obras é fruto de publicação independente; ou seja, pode ser que aquele livro da sua editora favorita não esteja ainda disponível eme-book. Livros físicos: em 03/16 o acervo de títulos em português estava perto de 454 mil, ou seja, é muito provável que você encontre no site o que você está procurando. Facilidade de compra: Perfeito, além de ser fácil e rápido no site – tanto para […]

Livraria online, qual é a sua?



No dia 07 de Janeiro se comemora, no Brasil, o dia do leitor. Seria irônico caso já não estivéssemos acostumados com datas dedicadas a minorias onde a tônica oscila entre o protesto necessário e comemorações hipócritas. As estatísticas sobre os hábitos de leitura dos brasileiros são lamentáveis para qualquer país que pretenda se livrar do eterno carimbo “em desenvolvimento”. É bastante provável que se você está lendo isso, não faça parte da média que lê em torno de 4 livros ao ano, a maioria didático ou religioso. Se você lê 2 ou 3 vezes isso, ou até mais, ótimo – sabe perfeitamente a diferença que isso faz na vida, em todos os sentidos. Mas, talvez, você faça parte do grupo que considera um gasto muito grande de tempo, ou não considere um dinheiro bem empregado a compra de livros (de fato eles são caros por aqui, especialmente quando comparados ao valor da remuneração que recebemos), ou ainda… pode simplesmente não ter se interessado pela atividade porque as alternativas oferecidas (ou forçadas) na escola não interessavam nem um pouco. Não importa o grupo onde você se enquadra, tente seguir aqui minhas divagações e depois pode contrariar, complementar, ou corrigir alguma coisa que tenha me escapado. Então, adiante. Já é assunto assimilado a necessidade de mudar (para melhor, espera-se) o hábito de leitura do brasileiro em termos de volume e diversidade. Existe, para tanto, o PNLL – Plano Nacional do Livro e Leitura, atualmente gerido pela FBN – Fundação Biblioteca Nacional. E a meta, segundo o Ministério da Cultura, é triplicar (até 2020) o […]

Onde estão os leitores?


As notícias sobre vendas de e-books no Brasil a partir do alvoroço gerado com a disponibilização do primeiro e-reader de qualidade em lojas físicas no Brasil foram alvissareiras no finalzinho de 2012. A parceria Kobo Cultura marcou uma nova situação de visibilidade para o e-book, gerando, no mínimo, curiosidade num público que não costuma circular nos fóruns de discussão vinculados ao tema. Logo depois, como uma resposta às pressas, a Amazon.com.br abriu seu site (bem capenga, aliás) e aos poucos vem fazendo ajustes e procurando fisgar os clientes que estavam vinculados à loja US para movimentar o domínio tupiniquim. Numa iniciativa inédita no mundo, resolveu colocar o seu aparelho Kindle à vista do público através de quiosques, além das vendas online na própria Amazon e no Ponto Frio.com. Aparentemente, mesmo com o alto impacto dos impostos no valor final dos aparelhos dedicados exclusiva ou prioritariamente à leitura (a maioria permite reprodução de áudio e uma conexão limitada à web) as vendas de e-book cresceram por conta da disponibilização dos e-readers a um público maior. Mas esse aumento nas vendas não representa, até o momento, nenhum impacto real sobre a capacidade de leitura do brasileiro. Explico, quem compra um e-reader que custa aqui no Brasil 70% mais do que o valor pago pelo mercado americano só o faz por ser um leitor voraz. Ou seja, essa nova alternativa de acesso a conteúdo não está cumprindo o potencial intrínsico que possui de fomentar o hábito da leitura (seja pela praticidade de transporte, seja pelo acesso a […]

E-readers ao alcance do leitor, e agora?


Uma das tantas possibilidades da publicação em e-book é a de dar asas aos heróis que tem iniciativa e disposição para editar e distribuir conteúdo sem finalidades comerciais. Foi o que fez Helena Frenzel ao reunir os textos de 15 escritores brasileiros e editar o 15 contos mais, que está disponível para leitura online e para download em formato ePub aqui. Como o arquivo não tem DRM, permite a conversão para o formato mobi (para leitura no kindle) com o uso do software gratuito Calibre. Sabemos que existe um volume consideravelmente grande (para não dizer absurdo) de novos autores querendo ser lidos, mas que sem um canal ou interlocutor que os avalize previamente, enfrentam a dificuldade de chegar diretamente aos leitores que não os conhecem. Daí a importância do trabalho de edição, neste caso feito por puro e exclusivo amor à literatura e à leitura. O leitor que busca por novidades, não precisa confiar apenas na auto declaração do autor, houve um trabalho de garimpo e edição que funciona como aquelas utilíssimas indicações de leitura que recebíamos dos amigos, lembram? Todo mundo que gosta de ler sabe do que estou falando… Isso certamente ajuda a driblar a desconfiança que se possa ter com  as publicações independentes, especialmente as gratuitas. Como não sou exceção, a indicação da Helena foi um motivador para iniciar a leitura (o tempo é escasso e, parafraseando um amigo que fala de vinhos, digo sempre que a vida é muito curta para lermos livros ruins), mas ainda assim, antes de me dispor a ler o e-book na íntegra, fiz uma amostragem para […]

Quinze contos mais



Em 2012 o e-reader da Amazon (por enquanto ainda com o título de “melhor”entre os disponíveis) completou 5 anos, mas quem chegou para venda direta aqui no Brasil (através de uma parceria com a Livraria Cultura) foi o aparelho do concorrente, o Kobo. Mas ainda é gigantesco o número de leitores que sabe muito pouco sobre como obter e ler conteúdo nesse formato. Por isso montei esse pequeno “ABC do e-book” que poderá ser atualizado periodicamente para esclarecer dúvidas de iniciantes. A leitura em dispositivos dedicados exclusivamente a essa função entre os leitores brasileiros (que são poucos) ainda bão é expressiva. A disponibilidade de informações para o grande público (leia-se, os que não são aficionados por tecnologia) deixa muito a desejar. É bastante provável que boa parte dos seus amigos e conhecidos não tenha uma ideia sequer nebulosa sobre as diferenças entre tablet e e-reader e só consiga associar o temro e-book aos PDF’s. Mas os movimentos no mercado online dos últimos dois meses do ano prometem mudar essa realidade no Brasil. Se isso vai significar que deixaremos de portar o carimbo de país de não leitores, não sei, mas bem poderia ser uma das portas para chegarmos a uma outra realidade. Na esperança de esse movimento se inicie, revisei e requentei o resumo (nada original, admito),com informações muito básicas para aqueles que não tem nenhuma intimidade com o universo dos e-books. O que é um e-book? Também conhecido como livro eletrônico, os e-books são versões digitais de livros, que podem ser lidos […]

ABC do e-book (update)


Leitura à vontade O advento dos e-books fez o universo da publicação independente adquirir novos contornos. O que para os autores pode ser considerado como uma “libertação” em relação ao mercado editoral tradicional, para o leitor é uma chance de acesso a um acervo virtualmente infinito. Além de todo o acervo em domínio público que os leitores podem desfrutar através de iniciativas como o Projeto Gutemberg e do Domínio Público, há zilhões de títulos disponibilizados gratuitamente por autores iniciantes (como euzinha, por exemplo) e até por autores consagrados (é só visitar frequentemente a aba “e-books gratuitos” de lojas como a Amazon, Apple ou Kobo). Contos.com Esse e-book é fruto de uma experiência feita com o software gratuito iBooks Author. Infelizmente, o arquivo resultante, na época em que fiz o teste só pode ser lido em alguns aparelhos iOS, consegui exportar para o formato PDF e disponibilizar na plataforma ISSUU –  quem quiser conferir o resultado, pode ver o Contos.com, que disponibilizei aqui ou baixar gratuitamente via iTunes.

Contos.com, um e-book Gratuito


Este foi o conto premiado no II Concurso Literário da Revista Piauí e foi publicado na edição número 36 da revista. Trânsito Eu deveria ter trazido o impermeável. Agora tenho de ouvir esse sujeito com mania de pai fazendo gracejos enquanto veste a capa: Mudemos o uniforme; e já! Senão vai todo mundo se gripar. Uns riem, outros passam reto. Rezo baixinho para conseguir terminar as entregas antes do aguaceiro e chegar cedo para arrumar a bagunça antes da Paula chegar. Ela vai levar um susto bom. Muitos sinais fechados no caminho, e justamente hoje que não estou interessado nas cenas do trânsito. Tinha pressa, queria fugir do mau tempo e organizar a casa para a Paula. Geralmente gosto de ver a reação das pessoas quando se percebem observadas – alguns tentam disfarçar, outros ignoram e seguem no ritmo de antes e já houve até um senhor irritado que baixou o vidro para dirigir a mim os xingamentos que distribuía aos filhos. Mas hoje não quero dissecar retalhos da privacidade alheia, quero escapar da chuva. O sinal manda parar, mas a faixa de pedestre está vazia, como a calçada, nada para assistir. Reduzo e obedeço. À direita, uma camionete importada dirigida por um sujeito que fala no telefone e fecha a passagem da moça do carro branco. Ela, nem tão moça assim, não baixou o vidro para desacatá-lo, mas acelerou, desviou e seguiu adiante enquanto o amarelo avisava que eu e o cara da camionete não conseguiríamos. Alcancei o carro […]

Um conto feito de pressas e perdas



O concurso Idealizado em 2010, pela Geração Editorial, o Concurso de minicontos que selecionou narrativas delimitadas pelo número máximo de 140 caracteres (sim, influência direta do twitter) resultou no lançamento de um e-book, em formato PDF, que foi disponibilizado gratuitamente no blog da editora. O e-book O Geração em 140 Caracteres reúne estórias curtíssimas de mais de 100 autores selecionados Brasil adentro. Não houve muito estardalhaço com o lançamento, exceto um post no blog da editora, além disso, o formato e-book não foi incorporado com força na atuação da Geração Editorial mas o grande número de autores (incluindo-me) que tem textos seus ali reunidos acabou por se encarregar de divulgá-lo na web. Então, fica a dica, o PDF é bem diagramado e não vem protegido por DRM (portanto você pode ler em qualquer dispositivo de leitura sem necessidade de conversões ou limites de dowloads). O meu miniconto é o “Justiça”. Palpites sempre serão bem-vindos. Baixe aqui e, se é usuário do skoob, que tal deixar lá algum comentário?

Geração 140


Monólogo de um mau marido Ela não aparece faz muitos dias, deixou-nos aqui em suspenso desde a última vez que trabalhou neste conto. Ficamos cercados por essa sua mania de destacar a última palavra do parágrafo incompleto com a marca amarela do editor de texto. Não bastasse a falta de ações, ainda a decepção de encontrar essa barreira espalhafatosa tornando insolúvel o nosso conflito. Este borrão me traz a impressão de um amontoado de escombros depositados na estrada, interrompendo nosso trânsito. Não sei o que houve. Talvez ela não tenha conseguido resolver a forma como apresentará o sofrimento e a complexidade dos personagens, ou pode simplesmente ter desistido do conto. Desagradável é ficarmos neste vácuo; ao menos para mim a condição é muito incômoda. Sobre os sentimentos de Alice não posso afirmar muito. Segundo o tanto da história que ficou armazenada neste arquivo de poucos bytes, o emprego vai bem e não há indícios de problemas com minha saúde. De incomum, apenas a inércia desmedida com minhas insatisfações. Desconheço se haverá algum segredo terrível a ser desvendado no final, mas o trecho oferecido à apreciação dos leitores – se houver algum – não dá sustentação para meu gênio instável, tampouco justifica a total falta de ânimo que ela me atribui, especialmente nos fins de tarde. Espero ainda ser surpreendido pela escritora, mas enquanto ela não volta, sou forçado a repisar o diálogo azedo com minha mulher. Seu nome é Alice (o meu sequer existe nessa ficção), ela tem menos de quarenta anos, […]

E se o personagem se rebelar?


O Nome O rapaz da seção de estofados chama-se José, a senhorita bem penteada dos cristais é Simone, e Deise é aquela mais empertigada com uniforme diferente – é a supervisora. Mas onde estará a menina magra de cabelos curtos que atendeu sua esposa outro dia e foi tão atenciosa ao mostrar os faqueiros, porcelanas e quase todos os itens da lista de casamento da sua sobrinha? No seu lugar estava um mocinho solícito e pálido chamado Davi. O olho atento e o ouvido interesseiro ajudaram a descobrir os nomes de vários atendentes da loja, menos aquele que provocou seu retorno. A volta ao estabelecimento foi precedida de muita reflexão e sobressaltos. Lúcio calculou o pretexto mais adequado – demonstraria interesse pela lupa com cabo nacarado vista na seção onde ela atende – e antecipou as sensações possíveis quando reagisse a um eventual sorriso dela, ao apertar sua mão, agradecendo a cordialidade. Demorou-se por alguns dias inquietos fantasiando enredos verossímeis para o intento, fantasiou enviar-lhe flores, encontrá-la no elevador e deparar-se com sua respiração buliçosa. Mas eram sonhos curtos, entrecortados da lucidez oferecida pela posição de professor titular de uma universidade católica e ele acordava sempre antes de imaginar o gosto que teria o beijo daquela menina tão fora de suas possibilidades como marido correto, homem culto e prudente. A decepção de não vê-la foi também alívio, porque não sabia como seria se ela estivesse lá. E se a atenção dispensada no outro dia fosse somente cortesia de boa vendedora? […]

Um conto sobre seduções ingênuas



Desencontros Pediu um analgésico forte. A enfermeira respondeu que não poderia fornecer nenhum medicamento não previsto no seu prontuário, mas assim que o médico passasse pelo posto ela comentaria sobre sua dor. O residente era atencioso, viria vê-la, com certeza. Tentasse dormir. Quem sabe um chazinho? Beatriz não se deu ao trabalho de argumentar e sequer recusou o chá, mas precisava mesmo era de um sonífero potente e só falou em analgésico porque imaginou maiores chances de ser atendida. Sem conseguir o que queria, aferrou-se ao incômodo físico, expressando-o em gemidos sem energia, apenas como um artifício para não pensar, concentrada no rumor que escapava dos lábios ressequidos fugia do único pensamento disponível. Sentia-se desperta como nas manhãs de férias dos tempos da adolescência, quando dispensava o despertador e levantava com ânimo de primavera, arrumava-se e ia para a quadra treinar. Mas agora era diferente, e a dimensão dessa diferença tornava maior a vontade de fuga. As feridas ardiam e nos intervalos do próprio gemido, as frases dele voltavam, misturando-se ao cheiro asséptico dos lençóis e fazendo o estômago se contrair. Tentou forçar a lembrança para situar-se no tempo, mas não tinha conta dos dias no hospital, sabia de pelo menos cinco anoitecimentos. Foram muitos mais desde a tarde em que a socorreram na estrada. Nenhuma enfermeira disse claramente, nem o médico que interpretava os registros na planilha ao pé da cama e os aparelhos aos quais estava ligada. Ela também preferia não perguntar, mas tinha quase certeza de ter […]

Um conto cheio de dor e reticências


Inverno Branco “Constató se una anemia de marcha agudísima, completamente inexplicable. Alicia no tuvo más desmayos, pero se iba visiblemente a la muerte.” Horacio Quiroga Aqui se desenrolou um existir imperceptível, as paredes aparentavam maciez, mas era apenas brancura, opacidade. Quando os cabelos dela se aproximavam do linho engomado, eu pressentia seu frio, mais um sinal de pavor que o efeito do inverno. O leito, inaugurado no outono de peculiar felicidade, fora encomendado para as núpcias, assim como a alvura das cobertas e bordados. Havia no quarto uma bela lareira, da qual se esperava que combatesse os efeitos do minuano e dos dias nublados. Mas a lenha ardia impotente contra a decepção de Alba. Ela, moça miúda, de pele muito clara e traços bem acabados, crescera dentre muitos irmãos e irmãs como felino infiltrado em uma matilha. Não se afeiçoava às brincadeiras das meninas, sempre ocupadas com suas bonecas de pano e cantigas de roda. Também tinha pouca proximidade com os irmãos que corriam descalços no campo e caçoavam do seu silêncio sonhador. Passava boa parte do tempo na casa onde a mãe trabalhava, cuidando da cozinha e dos animais domésticos. Uma casa de família distinta, as filhas recebiam lições de línguas e música na biblioteca ampla. Alba, sempre tão quieta, incapaz de importunar as senhoritas ou o professor, era autorizada a assistir as aulas. Assim, aprendeu a ler e ocasionalmente conseguia emprestado algum livro de sonetos, e isso sim lhe trazia júbilo. Jonas fora criado com severidade, mas nunca […]

Um conto querendo ser de Quiroga


Interrupção A rua estreita, de calçamento antigo, escorregadio depois do trânsito de muitas histórias, e ela. Conhecia cada uma das pedras em que pisaria e por isso já não tomava cuidado. Sabia da rua. Não era habitual passarem carros naquele horário. O barulho que predominava quando desceu do meio-fio para chegar à outra esquina vinha dos copos e das frases ecoando, desordenadas, na cabeça alcoolizada. Já havia contado o número de passos daquela travessia. Muitas vezes, em tempos de bem antes, quando ainda era criança. Onze passos, sem pressa. Um, dois, no terceiro titubeou com a lembrança de uma farpa ouvida na mesa do bar. Não respondera e agora nascia uma raiva sem muita força. No quinto passo ouviu um ronco, sem identificar a origem rumou ao número seis, sete. Quando balbuciou oito, o som tímido subiu no ar como seu corpo sem controle. Nove, dez e o baque abafado de osso e porre misturados com o polido da rua. O carro já havia sumido sem que alguém tivesse anotado placa ou modelo. Só viram que era branco, mas já a noite engolia qualquer desacerto e todo desencontro.  

Um conto sobre momentos breves intermináveis



Andanças Demorou a aprender o português de modo a não provocar perguntas sobre sua nacionalidade toda vez que pedisse uma informação ou o almoço no vegetariano do centro. Mas, tão pronto logrou reproduzir a fala dos locais, arrependeu-se da sutil intervenção cirúrgica que lhe deu tranqüilidade no início. Hoje, pensa que poderia ter sido aceito no cotidiano da cidade sem despertar qualquer suspeita apenas mudando o cabelo e as roupas, talvez o óculos, que era sua marca. O medo de que o descobrissem era, na verdade, pura paranóia. A encenação da sua morte foi muito convincente até para os mais próximos e o tal Chapman segue na prisão. Tinha um pouco de remorso pela acusação injusta, mas tranqüilizava-se porque de outra forma o fã não teria punição alguma para outros atos hediondos já cometidos. Mark, tão perturbado, talvez até se sentisse agradecido pela chance de poder fazer tamanho favor ao objeto de suas obsessões. Não falou disso quando iniciou as confissões, mas não se negou a contribuir quando a ideia lhe foi apresentada. Agora já não faz diferença. O passado ficou bem enterrado, está assegurada a fama eterna para o nome de antes e agora tem a rotina sem peso de tocar violão na noite curitibana, entremeando as canções recém criadas com os sucessos que os estudantes ainda se emocionam ao ouvir. Não se arrepende, mesmo que haja noites melancólicas em que lamenta a saudade dos filhos, sabe que há manhãs frias e claras para apoiar os que ainda sonham […]

Um conto sobre o anonimato


Por quê livro digital? Porque é uma ótima forma de distribuir conteúdo. Novos autores podem publicar com custos muito menores que um processo impresso. Editoras podem ampliar sua base de leitores. Existem várias oportunidades que se abrem com o livro digital. Para os leitores, especialmente, os eBooks significam preços menores, fim das edições esgotadas, livros acessíveis a qualquer momento, leitura em qualquer lugar, com qualquer aparelho. Por que eReaders? São mais confortáveis para ler eBooks. São leves, podem carregar muitos livros, têm uma bateria duradoura. O leitor pode ajustar o tamanho da fonte conforme a necessidade. Usam uma tecnologia de tinta eletrônica, que não cansa os olhos em uma leitura prolongada. E estão cada vez mais baratos e acessíveis. Quais os objetivos da campanha? Esclarecer a população em geral sobre as possibilidades da leitura digital. Muitas pessoas ainda ignoram os benefícios dos eBooks e eReaders. Queremos mudar isso. Quanto mais pessoas conhecerem as vantagens e lerem eBooks, mais eBooks serão oferecidos no mercado, com preços melhores. Conseguir mais opções de livros digitais com qualidade, incentivando editoras e autores a disponibilizar seus livros em formato digital – mostrar a eles que os leitores querem, sim, ler no formato digital! Melhorar a qualidade dos serviços existentes hoje. Garantir que editoras e livrarias recebam o feedback valioso de quem lê livros digitais. Como você pode ajudar a alcançar estes objetivos? Participe do nosso fórum coletivo. Não sabe como ler um livro digital? Achou um eBook mal feito, uma livraria que atendeu mal? Tem […]

O Que se Ganha com a Popularização do E-book?


Jasmins e Alfaces Olhou para o chão, para a terra de tom desbotado, viu os chinelos empoeirados e os pés também. Odila não gostava dessa coisa baça deixada pela poeira no seu trajeto, como se sublinhasse o silêncio ao qual estava obrigada. Não é que ela seja uma criança inquieta, mas se incomoda quando não há escolhas. É hora da sesta, a louça já foi lavada e as panelas secam ao sol, para que fiquem brilhando. Ela não corre porque senão o cachorro vai querer brincar e, certamente, vai latir. Perambula pelo pátio de terra dura, bem varrida, recortado por grama e pelos canteiros de dona Fabiana. Não gosta de ir até a horta nesse horário porque o sol, mesmo manso, faz as folhas desanimadas e isso aumenta o peso de manter-se calada. Antes de se recolher, a mãe faz sempre as mesmas recomendações – para não se molhar nem ficar no sol e que não fosse Odila arranjar nenhum machucado. A menina não responde, apenas pendura o pano de prato e sai, deixando a porta da cozinha entreaberta. Dona Fabiana deitada e ela senhora daquele território que anos depois reconheceria tão menor do que lhe soava naquela tarde. A vontade era de escapulir, investigar os pátios das outras casas – especialmente as que tinham muro ao invés daquela cerquinha de bambu feita pelo seu pai – ou seguir até o final da quadra, onde estava o campinho de futebol, reduto da meninada do bairro nos sábados à tarde. Mas […]

Um conto sobre uma infância quieta



Quem já teve algum contato com o assunto e-book, certamente já ouviu falar do Projeto Gutenberg, mas pode ser que não tenha dedicado algum tempo para explorar o que é ofertado por lá. Não vou me ater à história (muito bacana, aliás) do projeto porque isso pode ser vastamente consultado por aqui. Gostaria de trazer um pouco mais de detalhes sobre o conteúdo lá disponibilizado sob a perspectiva do leitor. Comecemos pela questão do idioma. São mais de 30 mil títulos ao todo, a esmagadora maioria está disponível apenas em inglês, em português temos 518 obras, 1.888 em francês, 800 em alemão, 615 em finlandês, 405 em chinês, 316 em espanhol, além de edições em 54 outras línguas. Vale notar que o site está disponível apenas em inglês e português, o que denota uma certa deferência com nosso idioma. Boa parte dos títulos está disponível para leitura online, sem necessidade de qualquer download. Para quem preferir baixar o arquivo para ler em seu computador ou nos demais dispositivos de leitura (e-readers, tablets, smartphones) são ofertados arquivos em diferentes formatos, evitando a necessidade de conversões que podem não ser tão fáceis de executar para alguns usuários. Além dos formatos textos, há audiolivros também. Naturalmente não espere encontrar lá o mais recente best seller, a maioria dos títulos são obras que já caíram no domínio público e foram digitalizadas com base em trabalho voluntário ou apoio de alguns parceiros do projeto. Quanto ao aspecto visual, muitos dos arquivos podem não ter a melhor edição […]

Projeto Gutenberg Para Nós


Essa época do ano me faz gostar ainda mais de Porto Alegre. É tempo de Feira do Livro, evento que, em 2010, foi reconhecido como patrimônio imaterial da cidade pela Secretaria Municipal da Cultura. Nesta 57a edição, serão 19 dias de feira, já sem os atrapalhos das obras na Praça da Alfândega como no ano passado. Apesar o orçamento encurtado, as previsões são otimistas. As expectativas são de grandes números, tanto de visitações como de vendas. Garimpando na programação da feira, dá para encontrar, nas oficinas e na programação paralela tímidos espaços abordando o livro digital. O Congresso Brasileiro de Leitura Digital foi um desses eventos e haverá ainda outras boas abordagens que recomendo. O restante da programação pode ser consultada aqui, dividida por temas diários. Oficina: Entenda o livro digital e seu mercado Quando: 05/11/2011 – 19:00 Onde: Sala O Retrato – CCCEV Convidados: Eduardo Melo Livro digital e novas mídias na educação Quando: 09/11/2011 – 16:00 Onde: Assec – Trav. Leonardo Truda, 40 – 21º andar Convidados: Eduardo Melo

Tempo de Livros e Jacarandás


Hoje a Amazon saciou a curiosidade de todos os que já se apaixonaram pelos seu e-reader e daqueles que estavam na expectativa do tablet de baixo custo que finalmente seria um concorrente à altura do iPad. Com o argumento de que o esforço da empresa é trabalhar duro para poder cobrar sempre menos dos seus clientes, Jeff Bezos anunciou quatro novos produtos. O Kindle apenas R $ 79, duas novas touch screen do  Kindle: o Kindle Touch e o Kindle Touch 3G – por US $ 99 e US $ 149, respectivamente e o tão aguardado tablet (que a Amazon não nomeia como tal, mas como “uma nova classe de Kindle”) – o  Kindle Fire – um Kindle com tela colorida, ideal para ver filmes, ouvir música, ler livros e revistas, usar aplicativos e navegar na web com um navegador ultra rápido – o Amazon Silk. E tudo isso em pré-venda por apenas R $ 199. O Kindle Fire tem tela colorida de 7 polegadas, processador duol-core, tem 416 gramas e bateria com duração de até 8 horas. O aparelho permite ouvir música enquanto se navega na web ou se lê um livro, por exemplo, mas ainda não se rendeu ao formato ePub. A imagem do novo Kindle é do site da Amazon.com INFORMAÇÃO IMPORTANTE (e frustrante):  pelo menos por enquanto, o produto não está disponível para o Brasil, assim como os novos modelos de e-reader com o recurso touch screen.

Kindle Fire