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Contos e possíveis fragmentos de um futuro romance escritos por Maurem Kayna


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Mormaço Corre mal a semana – tão poucas vendas concretizadas transformam a ameaça do desemprego em uma presença permanente, como se houvesse alguém ocupando o banco do carona.  Mas ainda restam duas cidadezinhas no roteiro e até o final do dia a sorte talvez seja mais simpática com ele. A paisagem do interior, verde e quieta, não resolve nenhum problema concreto, mas ameniza tudo que desbota o ânimo. Paulo gosta de dirigir, e lhe agrada a vida itinerante, o contato com os donos de bares e pequenos mercadinhos. Gente de quem sorve histórias, com quem divide anedotas e consegue rir como se não tivesse pensamentos escuros. Na estrada, vai ensaiando os argumentos para convencer seus clientes e faz a contagem regressiva da distância a percorrer até o próximo estabelecimento. Mas os tempos andam difíceis e os produtos que representa não são fáceis de vender como os gêneros alimentícios. A bebida sempre tem saída, mas em épocas de crise, especialmente naquelas cidades marcadas por hábitos religiosos mais restritivos, acaba vendendo menos. Para afugentar a ansiedade e a sonolência ele desiste do ar condicionado e abre a janela, acreditando nos poderes que tem o barulho do vento para dissipar, se preciso, até o medo. Faltam ainda quinze quilômetros. Quando deixa atrás de si o asfalto para enfrentar os paralelepípedos e depois o chão batido, vê uma sombra atravessar o caminho que o automóvel percorre, cada vez menos rápido, respeitando os buracos e a poeira. O animal veloz estampou-se no vidro durante o […]

Um conto sobre o acaso e a covardia


Engana-se quem pensa que a literatura exige ineditismo. Há infindáveis formas de se contar uma história e pensando nisso faço muitos exercícios de refazer e desfazer histórias. O conto a seguir já teve outros títulos, outros finais e mesmo outras etapas narrativas, mas o cerne continua sendo um só – uma pitada de taquicardia e desencontro que expõem o descompasso entre pessoas que não construíram um vínculo dado como inevitável. Descompasso Vai pela calçada engolindo o sol com a pele, absorto com as marcas de chiclete e tocos de cigarro que turvam o chão, mas nota o carro passando. Percebe ou acredita perceber o veículo reduzindo a velocidade sem se deter, o olho no retrovisor querendo voltar. Por algum tempo, bem curto, reina a certeza de ter sido reconhecido. Fernando mantém o ritmo e finge desatenção com o tráfego quando chega na esquina e escolhe ir no sentido oposto ao deslocamento do carro. Não quer saber a decisão da condutora quanto a seguir adiante ou investigar, congela a imagem do seu olhar no espelho e repete-a para si mesmo em cada passo que segue imprimindo sobre o pavimento. Ao passar a mão pela barba, sente o vento tocar a claridade dos próprios olhos, o ar é frio e o remete à água que tantas vezes colhera do poço, debruçado na mureta de tijolos úmidos onde as vezes cresciam avencas, indeciso entre o medo de não atender sua mãe a tempo e a curiosidade pelo túnel vertical, interrompido pelo espelho denso que ele rompia com a […]

Um conto cheio de taquicardia e desencontro


Leitura à vontade O advento dos e-books fez o universo da publicação independente adquirir novos contornos. O que para os autores pode ser considerado como uma “libertação” em relação ao mercado editoral tradicional, para o leitor é uma chance de acesso a um acervo virtualmente infinito. Além de todo o acervo em domínio público que os leitores podem desfrutar através de iniciativas como o Projeto Gutemberg e do Domínio Público, há zilhões de títulos disponibilizados gratuitamente por autores iniciantes (como euzinha, por exemplo) e até por autores consagrados (é só visitar frequentemente a aba “e-books gratuitos” de lojas como a Amazon, Apple ou Kobo). Contos.com Esse e-book é fruto de uma experiência feita com o software gratuito iBooks Author. Infelizmente, o arquivo resultante, na época em que fiz o teste só pode ser lido em alguns aparelhos iOS, consegui exportar para o formato PDF e disponibilizar na plataforma ISSUU –  quem quiser conferir o resultado, pode ver o Contos.com, que disponibilizei aqui ou baixar gratuitamente via iTunes.

Contos.com, um e-book Gratuito



Este foi o conto premiado no II Concurso Literário da Revista Piauí e foi publicado na edição número 36 da revista. Trânsito Eu deveria ter trazido o impermeável. Agora tenho de ouvir esse sujeito com mania de pai fazendo gracejos enquanto veste a capa: Mudemos o uniforme; e já! Senão vai todo mundo se gripar. Uns riem, outros passam reto. Rezo baixinho para conseguir terminar as entregas antes do aguaceiro e chegar cedo para arrumar a bagunça antes da Paula chegar. Ela vai levar um susto bom. Muitos sinais fechados no caminho, e justamente hoje que não estou interessado nas cenas do trânsito. Tinha pressa, queria fugir do mau tempo e organizar a casa para a Paula. Geralmente gosto de ver a reação das pessoas quando se percebem observadas – alguns tentam disfarçar, outros ignoram e seguem no ritmo de antes e já houve até um senhor irritado que baixou o vidro para dirigir a mim os xingamentos que distribuía aos filhos. Mas hoje não quero dissecar retalhos da privacidade alheia, quero escapar da chuva. O sinal manda parar, mas a faixa de pedestre está vazia, como a calçada, nada para assistir. Reduzo e obedeço. À direita, uma camionete importada dirigida por um sujeito que fala no telefone e fecha a passagem da moça do carro branco. Ela, nem tão moça assim, não baixou o vidro para desacatá-lo, mas acelerou, desviou e seguiu adiante enquanto o amarelo avisava que eu e o cara da camionete não conseguiríamos. Alcancei o carro […]

Um conto feito de pressas e perdas


O concurso Idealizado em 2010, pela Geração Editorial, o Concurso de minicontos que selecionou narrativas delimitadas pelo número máximo de 140 caracteres (sim, influência direta do twitter) resultou no lançamento de um e-book, em formato PDF, que foi disponibilizado gratuitamente no blog da editora. O e-book O Geração em 140 Caracteres reúne estórias curtíssimas de mais de 100 autores selecionados Brasil adentro. Não houve muito estardalhaço com o lançamento, exceto um post no blog da editora, além disso, o formato e-book não foi incorporado com força na atuação da Geração Editorial mas o grande número de autores (incluindo-me) que tem textos seus ali reunidos acabou por se encarregar de divulgá-lo na web. Então, fica a dica, o PDF é bem diagramado e não vem protegido por DRM (portanto você pode ler em qualquer dispositivo de leitura sem necessidade de conversões ou limites de dowloads). O meu miniconto é o “Justiça”. Palpites sempre serão bem-vindos. Baixe aqui e, se é usuário do skoob, que tal deixar lá algum comentário?

Geração 140


Monólogo de um mau marido Ela não aparece faz muitos dias, deixou-nos aqui em suspenso desde a última vez que trabalhou neste conto. Ficamos cercados por essa sua mania de destacar a última palavra do parágrafo incompleto com a marca amarela do editor de texto. Não bastasse a falta de ações, ainda a decepção de encontrar essa barreira espalhafatosa tornando insolúvel o nosso conflito. Este borrão me traz a impressão de um amontoado de escombros depositados na estrada, interrompendo nosso trânsito. Não sei o que houve. Talvez ela não tenha conseguido resolver a forma como apresentará o sofrimento e a complexidade dos personagens, ou pode simplesmente ter desistido do conto. Desagradável é ficarmos neste vácuo; ao menos para mim a condição é muito incômoda. Sobre os sentimentos de Alice não posso afirmar muito. Segundo o tanto da história que ficou armazenada neste arquivo de poucos bytes, o emprego vai bem e não há indícios de problemas com minha saúde. De incomum, apenas a inércia desmedida com minhas insatisfações. Desconheço se haverá algum segredo terrível a ser desvendado no final, mas o trecho oferecido à apreciação dos leitores – se houver algum – não dá sustentação para meu gênio instável, tampouco justifica a total falta de ânimo que ela me atribui, especialmente nos fins de tarde. Espero ainda ser surpreendido pela escritora, mas enquanto ela não volta, sou forçado a repisar o diálogo azedo com minha mulher. Seu nome é Alice (o meu sequer existe nessa ficção), ela tem menos de quarenta anos, […]

E se o personagem se rebelar?



O Nome O rapaz da seção de estofados chama-se José, a senhorita bem penteada dos cristais é Simone, e Deise é aquela mais empertigada com uniforme diferente – é a supervisora. Mas onde estará a menina magra de cabelos curtos que atendeu sua esposa outro dia e foi tão atenciosa ao mostrar os faqueiros, porcelanas e quase todos os itens da lista de casamento da sua sobrinha? No seu lugar estava um mocinho solícito e pálido chamado Davi. O olho atento e o ouvido interesseiro ajudaram a descobrir os nomes de vários atendentes da loja, menos aquele que provocou seu retorno. A volta ao estabelecimento foi precedida de muita reflexão e sobressaltos. Lúcio calculou o pretexto mais adequado – demonstraria interesse pela lupa com cabo nacarado vista na seção onde ela atende – e antecipou as sensações possíveis quando reagisse a um eventual sorriso dela, ao apertar sua mão, agradecendo a cordialidade. Demorou-se por alguns dias inquietos fantasiando enredos verossímeis para o intento, fantasiou enviar-lhe flores, encontrá-la no elevador e deparar-se com sua respiração buliçosa. Mas eram sonhos curtos, entrecortados da lucidez oferecida pela posição de professor titular de uma universidade católica e ele acordava sempre antes de imaginar o gosto que teria o beijo daquela menina tão fora de suas possibilidades como marido correto, homem culto e prudente. A decepção de não vê-la foi também alívio, porque não sabia como seria se ela estivesse lá. E se a atenção dispensada no outro dia fosse somente cortesia de boa vendedora? […]

Um conto sobre seduções ingênuas


Desencontros Pediu um analgésico forte. A enfermeira respondeu que não poderia fornecer nenhum medicamento não previsto no seu prontuário, mas assim que o médico passasse pelo posto ela comentaria sobre sua dor. O residente era atencioso, viria vê-la, com certeza. Tentasse dormir. Quem sabe um chazinho? Beatriz não se deu ao trabalho de argumentar e sequer recusou o chá, mas precisava mesmo era de um sonífero potente e só falou em analgésico porque imaginou maiores chances de ser atendida. Sem conseguir o que queria, aferrou-se ao incômodo físico, expressando-o em gemidos sem energia, apenas como um artifício para não pensar, concentrada no rumor que escapava dos lábios ressequidos fugia do único pensamento disponível. Sentia-se desperta como nas manhãs de férias dos tempos da adolescência, quando dispensava o despertador e levantava com ânimo de primavera, arrumava-se e ia para a quadra treinar. Mas agora era diferente, e a dimensão dessa diferença tornava maior a vontade de fuga. As feridas ardiam e nos intervalos do próprio gemido, as frases dele voltavam, misturando-se ao cheiro asséptico dos lençóis e fazendo o estômago se contrair. Tentou forçar a lembrança para situar-se no tempo, mas não tinha conta dos dias no hospital, sabia de pelo menos cinco anoitecimentos. Foram muitos mais desde a tarde em que a socorreram na estrada. Nenhuma enfermeira disse claramente, nem o médico que interpretava os registros na planilha ao pé da cama e os aparelhos aos quais estava ligada. Ela também preferia não perguntar, mas tinha quase certeza de ter […]

Um conto cheio de dor e reticências


Inverno Branco “Constató se una anemia de marcha agudísima, completamente inexplicable. Alicia no tuvo más desmayos, pero se iba visiblemente a la muerte.” Horacio Quiroga Aqui se desenrolou um existir imperceptível, as paredes aparentavam maciez, mas era apenas brancura, opacidade. Quando os cabelos dela se aproximavam do linho engomado, eu pressentia seu frio, mais um sinal de pavor que o efeito do inverno. O leito, inaugurado no outono de peculiar felicidade, fora encomendado para as núpcias, assim como a alvura das cobertas e bordados. Havia no quarto uma bela lareira, da qual se esperava que combatesse os efeitos do minuano e dos dias nublados. Mas a lenha ardia impotente contra a decepção de Alba. Ela, moça miúda, de pele muito clara e traços bem acabados, crescera dentre muitos irmãos e irmãs como felino infiltrado em uma matilha. Não se afeiçoava às brincadeiras das meninas, sempre ocupadas com suas bonecas de pano e cantigas de roda. Também tinha pouca proximidade com os irmãos que corriam descalços no campo e caçoavam do seu silêncio sonhador. Passava boa parte do tempo na casa onde a mãe trabalhava, cuidando da cozinha e dos animais domésticos. Uma casa de família distinta, as filhas recebiam lições de línguas e música na biblioteca ampla. Alba, sempre tão quieta, incapaz de importunar as senhoritas ou o professor, era autorizada a assistir as aulas. Assim, aprendeu a ler e ocasionalmente conseguia emprestado algum livro de sonetos, e isso sim lhe trazia júbilo. Jonas fora criado com severidade, mas nunca […]

Um conto querendo ser de Quiroga



Interrupção A rua estreita, de calçamento antigo, escorregadio depois do trânsito de muitas histórias, e ela. Conhecia cada uma das pedras em que pisaria e por isso já não tomava cuidado. Sabia da rua. Não era habitual passarem carros naquele horário. O barulho que predominava quando desceu do meio-fio para chegar à outra esquina vinha dos copos e das frases ecoando, desordenadas, na cabeça alcoolizada. Já havia contado o número de passos daquela travessia. Muitas vezes, em tempos de bem antes, quando ainda era criança. Onze passos, sem pressa. Um, dois, no terceiro titubeou com a lembrança de uma farpa ouvida na mesa do bar. Não respondera e agora nascia uma raiva sem muita força. No quinto passo ouviu um ronco, sem identificar a origem rumou ao número seis, sete. Quando balbuciou oito, o som tímido subiu no ar como seu corpo sem controle. Nove, dez e o baque abafado de osso e porre misturados com o polido da rua. O carro já havia sumido sem que alguém tivesse anotado placa ou modelo. Só viram que era branco, mas já a noite engolia qualquer desacerto e todo desencontro.  

Um conto sobre momentos breves intermináveis


Andanças Demorou a aprender o português de modo a não provocar perguntas sobre sua nacionalidade toda vez que pedisse uma informação ou o almoço no vegetariano do centro. Mas, tão pronto logrou reproduzir a fala dos locais, arrependeu-se da sutil intervenção cirúrgica que lhe deu tranqüilidade no início. Hoje, pensa que poderia ter sido aceito no cotidiano da cidade sem despertar qualquer suspeita apenas mudando o cabelo e as roupas, talvez o óculos, que era sua marca. O medo de que o descobrissem era, na verdade, pura paranóia. A encenação da sua morte foi muito convincente até para os mais próximos e o tal Chapman segue na prisão. Tinha um pouco de remorso pela acusação injusta, mas tranqüilizava-se porque de outra forma o fã não teria punição alguma para outros atos hediondos já cometidos. Mark, tão perturbado, talvez até se sentisse agradecido pela chance de poder fazer tamanho favor ao objeto de suas obsessões. Não falou disso quando iniciou as confissões, mas não se negou a contribuir quando a ideia lhe foi apresentada. Agora já não faz diferença. O passado ficou bem enterrado, está assegurada a fama eterna para o nome de antes e agora tem a rotina sem peso de tocar violão na noite curitibana, entremeando as canções recém criadas com os sucessos que os estudantes ainda se emocionam ao ouvir. Não se arrepende, mesmo que haja noites melancólicas em que lamenta a saudade dos filhos, sabe que há manhãs frias e claras para apoiar os que ainda sonham […]

Um conto sobre o anonimato


Jasmins e Alfaces Olhou para o chão, para a terra de tom desbotado, viu os chinelos empoeirados e os pés também. Odila não gostava dessa coisa baça deixada pela poeira no seu trajeto, como se sublinhasse o silêncio ao qual estava obrigada. Não é que ela seja uma criança inquieta, mas se incomoda quando não há escolhas. É hora da sesta, a louça já foi lavada e as panelas secam ao sol, para que fiquem brilhando. Ela não corre porque senão o cachorro vai querer brincar e, certamente, vai latir. Perambula pelo pátio de terra dura, bem varrida, recortado por grama e pelos canteiros de dona Fabiana. Não gosta de ir até a horta nesse horário porque o sol, mesmo manso, faz as folhas desanimadas e isso aumenta o peso de manter-se calada. Antes de se recolher, a mãe faz sempre as mesmas recomendações – para não se molhar nem ficar no sol e que não fosse Odila arranjar nenhum machucado. A menina não responde, apenas pendura o pano de prato e sai, deixando a porta da cozinha entreaberta. Dona Fabiana deitada e ela senhora daquele território que anos depois reconheceria tão menor do que lhe soava naquela tarde. A vontade era de escapulir, investigar os pátios das outras casas – especialmente as que tinham muro ao invés daquela cerquinha de bambu feita pelo seu pai – ou seguir até o final da quadra, onde estava o campinho de futebol, reduto da meninada do bairro nos sábados à tarde. Mas […]

Um conto sobre uma infância quieta