Encontros com o leitor – quem sai ganhando?


O encontro  “ao vivo”  entre escritor e leitores

Partamos do pressuposto de que alguém que investe sua energia na escrita, espera ser lido. Pode haver incontáveis razões para esse desejo, mas acredito que seja um pressuposto válido para qualquer escritor. Sendo assim, o encontro entre escritor e leitor, que normalmente não se dá de forma direta, mas através do texto é um dos objetivos daquele(a) que escreve. Quem trabalha com programas de fomento à leitura, em geral, acredita que promover encontros presenciais entre o autor e o leitor é uma das formas de estimular o bom hábito de se embrenhar no mundo das palavras, por isso existem vários programas que lançam mão desse artifício, como o Encontros com o autor, Autor Presente e o Sesc Mais Leitura. Recentemente tive a oportunidade de participar desses encontros com o leitor em Bagé e em Cachoeirinha – Rio Grande do Sul e voltei cheia de ânimo e reflexões, que partilharei aqui com vocês.

Quem é seu público alvo?

Não vou retomar a pergunta que deve sempre estar latejando na mente de todo escritor (para quem eu escrevo?), mas as ansiedades que me assaltaram logo após aceitar o convite para participar da atividade do Sesc. O público abrangido por esse programa incluía Ensino Médio e as útimas séries do Ensino Fundamental, ou seja, pessoinhas com 12 a 17 anos. Quando criei o projeto de literatura digital Labirintos Sazonais, embora ciente do quanto a interatividade é atrativa para esse público, não tinha pessoas tão jovens em mente. Temia que os textos, embora curtos e pouco complexos, fossem, digamos, excessivamente sem graça para esses meninos e meninas tão potencialmente dispersivos.

A atividade consistia em apresentar diversas iniciativas na área da literatura digital, mostrando opções de leitura para internautas como uma espécie de “petisco” literário (quiçá capaz de motivar o gosto por mais e mais leitura, especialmente na modalidade offline, mais livre de tanta competição com games, redes sociais e toda a agitação virtual) e depois, fazê-los entrar no jogo do Labirintos Sazonais, escolhendo as combinações de estações de sua preferência, lendo os textos formados e criando textos para esses minicontos.

O resultado, depois de oito turmas que somaram um público total de aproximadamente seisceitos alunos, foi uma grata surpresa. É claro que houve os desligados que, mesmo depois de detalhadas explicações sobre a dinâmica da atividade não a compreenderam ou simplesmente não se interessaram, mas aqueles que se engajaram na brincadeira, produziram resultados profundos. Alguns dos títulos criados demonstram interpretação das entrelinhas, do subtexto; outros são poéticos; alguns fizeram conexão com músicas ou vivências dos leitores. Aos poucos estou postando no site do projeto esses títulos e o nome dos alunos que contribuíram, quem quiser pode conferir pela Fan Page Labirintos Sazonais e, de quebra, dar uma curtida e ajudar a espalhar essa ideia.

 E qual a conclusão? Embora eu acredite que quando se escreve há um leitor-alvo em mente, com quem se imagina uma espécie de troca ou diálogo, do mesmo modo como acontece em qualquer roda de conversa, é sempre possível que outros “ouvintes” se interessem pelo papo e entrem no debate, com enriquecimento da experiência para todas as partes envolvidas.

 A proximidade autor-leitor realmente estimula a leitura?

Não tenho qualquer pretensão de discutir as ferramentas mais apropriadas para a formação de leitores ou para estimular os já leitores a continuar com o hábito, pois a matéria é muitíssimo mais extensa que meus palpites forjados no umbigo, mas esta pergunta realmente ficou martelando depois dessa experiência. Quais seriam os meios para medir o impacto daquelas horas partilhadas para os potenciais leitores? Mesmo que fosse possível aplicar algum instrumento de pesquisa que “medisse” suas leituras antes e depois de passarem pelas atividades, como poderíamos estabelecer uma relação de causa e efeito? Pude perceber que os acessos ao site do Labirintos Sazonais aumentaram um bocado, o que pode sugerir que alguns alunos ficaram curiosos e pintaram por lá para ler mais, fazer outras combinações entre as estações, mas isso não fornece uma resposta à pergunta postulada.  Andei xeretando pela web por aí, mas não encontrei dados que me permitissem formar um juízo a respeito. O certo é que, se não pude medir os efeitos da proximidade com os leitores sobre eles, poderia falar por bastante tempo (mas não se preocupem, não vou fazer isso) sobre as consequências para o autor. Não só por poder se emocionar ao ver a leitura se desdobrando em interpretações nas quais não se pensou ao escrever. Há também a sensação um pouco mágica que nos invade ao ver algumas daquelas criaturas concentradas  no parágrafo que germinou na solidão parilhada com o teclado ou com o bloco de notas e agora está ali exposto a olhos curiosos, que forjam imagens, talvez em tonalidades bem diversas das que imaginamos. E depois há alguma ou outra confissão feita ao final da conversa – “eu também escrevo…” e a certeza (ok, talvez mais esperança que certeza) de que a palavra, como matéria prima para a vida, haverá de iluminar ainda muitos trilhos de todas as pessoas que suspeitarem o tesouro que há em suas dobras.

 

 


sobre Maurem Kayna

Maurem Kayna é Engenheira Florestal, baila flamenco e é apaixonada pela palavra como matéria-prima para a vida. Escreve contos, análises sobre a auto publicação e tem a pretensão de criar parágrafos perenes.